Aulas remotas, durante a pandemia, fazem com que parte dos alunos não tenha contato com os conteúdos

por Luiza Rampelotti
02/07/2020 20:49 (Última atualização: 03/07/2020)

O diretor do José Bonifácio, Alex, acredita que a aula remota não seja a melhor metodologia de ensino

Desde o começo da quarentena, decretada pelos Estados e Municípios brasileiros, em março, devido à pandemia do novo coronavírus (Covid-19), crianças, adolescentes, jovens e adultos têm tido aulas em casa. Trocaram a escola pelas salas de suas casas, perdendo a interação com o colega para a solidão do computador ou celular.

Entretanto, um grande número de alunos da rede pública não consegue acessar as aulas on-line. Há, ainda, relatos de professores sobrecarregados e que estão investindo recursos que não têm para oferecer os conteúdos virtuais. Esta nova metodologia de aulas não era conhecida por muitos deles que, sequer, tinham celulares ou computadores que possibilitassem a captura e gravação de boas imagens.

Para os estudantes que não têm acesso à internet, as aulas estão sendo transmitidas na TV aberta, em multicanais da TV Record – RIC Paraná. Mas não há a possibilidade de saber quantos deles acompanham as aulas pela televisão. Além disso, um material impresso, de apoio, também tem sido distribuído aos educandos, para que não fiquem reféns das aulas virtuais.

73% on-line no Colégio José Bonifácio

Um dos maiores colégios estaduais de Paranaguá, o José Bonifácio, possui 1.079 alunos matriculados e ativos. Segundo o diretor da instituição, Alex José Correia Weiss, desses, quase 73% estão acessando as aulas virtuais e 27% utilizando o material impresso. “Para os estudantes que não possuem acesso à internet, conforme resolução do Governo Estadual, a escola disponibiliza, a cada 15 dias, atividades impressas (fisicamente) para que sejam retiradas no colégio”, diz.

Segundo ele, os conteúdos on-line são repassados por meio das plataformas Google ClassRoom, Power B.I., grupos de WhatsApp e Google Meet. “Todas elas nos ajudam a acompanhar, interagir e assessorar nossos alunos e professores nesse período de aulas remotas, pois não podemos deixar nossos estudantes sem o feedback necessário”, comenta.

No entanto, ele afirma que existem alguns alunos que não têm tido nenhum tipo de contato com a escola durante a pandemia. “É difícil mensurar um número, pois já chegamos ao índice de 100% de estudantes atingidos de forma on-line e forma física, com os materiais impressos. Mas há aqueles que, muitas vezes, não mantêm o ritmo de estudo contínuo, então a equipe pedagógica/direção precisa entrar em contato para que retomem os estudos”, informa.

Não é a melhor forma de aprendizado

Apesar de possuir um bom índice de estudantes frequentando as aulas remotas, o diretor Alex Weiss não acredita que esta metodologia de ensino, imposta aos estudantes e professores com o objetivo de evitar a disseminação do coronavírus, seja a mais ideal. “Em minha opinião como pai, pois tenho uma criança de 11 anos que estuda no 7º ano, esta não é a melhor forma de aprendizado ou o modelo ideal, mas em virtude do cenário em que estamos vivendo é a mais adequada e viável para manter nossas crianças, adolescentes e adultos adquirindo conhecimento e podendo ter uma oportunidade de manter um cronograma de estudos diário e contínuo”, destaca.

A respeito da possibilidade de haver um cancelamento do ano letivo de 2020, ele ressalta que não vê com boa aceitação a ideia, pois estão sendo disponibilizados materiais de estudos e os estudantes não estão sem conteúdo ou acompanhamento dos professores.

58,8% on-line no Cidália Rebello Gomes

Outra instituição de ensino com um grande número de matriculados, e que é a única a oferecer o Ensino Fundamental e Médio na Ilha dos Valadares, é o Colégio Estadual Cidália Rebello Gomes, com um total de 1.537 estudantes ativos. Por lá, o índice de acompanhamento desses estudantes às aulas remotas é regular: são 58,8% que participam do Google ClassRoom, segundo a diretora Simone Bozza Hernandes.

cidalia valadares
O Cidália Rebello é o único, público, na Ilha dos Valadares. Possui 1.537 estudantes ativos e 58,8% acessam as aulas on-line

Os alunos que não têm acesso à internet, mas têm TV em casa, assistem as aulas pelos canais abertos 38.2, 38.3 e 38.4 e realizam as atividades solicitadas pelos professores nos seus cadernos. A cada 15 dias, durante a entrega do kit merenda, a equipe pedagógica passa o visto nos cadernos e repassa os nomes desses alunos para os professores. Atualmente, 73 estudantes são atendidos dessa forma”, explica ela.

A respeito daqueles que não têm celular, computador, internet e nem televisão, a diretora comenta que, esses, são atendidos com as atividades impressas – as mesmas realizadas pelos demais alunos no Google ClassRoom e no Aula Paraná (por meio da televisão). “É o mesmo sistema: a cada 15 dias eles trazem as atividades realizadas e levam para casa as das próximas semanas. Pelo nosso controle, atendemos 138 alunos assim”, diz Simone Bozza. Dessa forma, ela afirma que 65% dos alunos do Colégio Cidália estão participando e recebendo conteúdos, mesmo em meio à suspensão das aulas presenciais.

35% estão sem contato com a escola

Porém, ainda há uma média de 35% de estudantes que “não apareceram em nenhuma das três formas de atendimento”, segundo a diretora. “Nesses casos, continuamos na busca ativa daqueles que ainda não conseguimos contatar”. De acordo com ela, uma de suas preocupações é com estes estudantes, pois isso significa que já são mais de três meses sem contato com os afazeres escolares. “Me preocupo, principalmente, com os alunos mais novos, dos 6º e 7º anos, que precisam, nessa etapa, de leitura e estímulo. Nosso objetivo é não deixar nenhum deles sem atendimento”, afirma.

Mesmo com o alto número de colegiais que não têm tido nenhum tipo de contato com a escola e nem com os conteúdos programáticos previstos para este ano letivo, para ela, o cancelamento deste ano acadêmico não é mais alvo de discussão. “Já estamos com as aulas remotas desde 06 de abril e o pior, que foi o período de adequação, já passou. Então, agora, todo o coletivo já está familiarizado com os procedimentos, uns mais e outros menos, mas todos, de alguma forma, já se apropriaram dos conhecimentos básicos das ferramentas”, explica a diretora.

Aprendizagem comprometida

Ainda assim, Simone sustenta que a aprendizagem está comprometida, tendo em vista que a interação entre aluno e professor foi muito limitada.

Não é o ideal, mas é um paliativo, pois, pelo menos, eles têm acesso aos conhecimentos e, acima de tudo, se obrigam a realizar leituras cotidianas para concluir as atividades”, diz.

Contraditoriamente, ela destaca não acreditar que os estudantes serão prejudicados devido a essa metodologia de ensino imposta em razão da pandemia. “A avaliação terá um olhar diferenciado diante de toda essa situação. E, para os anos que virão, com certeza que o currículo pode e deve ser revisto para sanar as dificuldades encontradas na aprendizagem deste ano. A pandemia pegou a todos de surpresa, houve muitas mudanças, tanto na nossa vida particular quanto no cotidiano escolar, e estamos tentando (direção, equipe pedagógica e professores) nos adequar para continuar a oferecer conhecimento aos alunos nesse ano tão difícil”, conclui.

Só 30% on-line no São Francisco

O Colégio Estadual São Francisco é o com menor número de estudantes matriculados, entre as instituições informadas pela reportagem – são 450 matrículas ativas. No entanto, ele é o que atende alguns dos bairros mais carentes da cidade: Emboguaçu, Vila Primavera, Vila do Povo, Santa Cecília e Vila São Carlos.

Segundo o diretor do colégio, Claiton Luis da Rocha, apenas 30% dos alunos, ou seja, 135, estão acessando as aulas disponíveis via on-line. Os demais, 315 estudantes, estão recebendo materiais impressos.

Claiton comenta que a modalidade de Ensino A Distância (EAD) não é a mais viável para a época de pandemia em que o Brasil se encontra. “Seria muito bom usar o EAD como um reforço, mas tudo pós pandemia, pois se formos levar ao pé da letra, teremos uma reprovação em massa”, conclui.

escola são francisco
No São Francisco estão matriculados 450 alunos, porém, apenas 135 estão tendo acesso às aulas on-line

O JB Litoral enviou outros questionamentos ao diretor, que acabou se limitando a repassar apenas as informações já citadas.

A reportagem procurou, também, a pedagoga especialista em psicopedagogia Renata Ribeiro, que atua na Clínica DesenvolveSER, em Paranaguá, para falar mais a respeito do assunto. Ela afirma que pesquisas já comprovaram que a pandemia está afetando o psicológico de muitos estudantes, causando perturbações como ansiedade, depressão e estresse.

Existem diversos aspectos que podem elencar essas perturbações psicológicas, uma delas é o isolamento social, outro pode ser a pressão ao estudar de forma on-line ou remota, pois muitos não tinham esse hábito e acabam por acumular atividades”, explica.

Psicopedagogia Renata Ribeiro

Ano letivo prejudicado

Em função desses transtornos e, também, de outras dificuldades enfrentadas pelos alunos, como as financeiras, que os impedem de ter acesso à internet, telefone celular, televisão e, às vezes, até mesmo a um local adequado de estudo dentro de casa, Renata ressalta que é inquestionável que o aprendizado será prejudicado no ano letivo de 2020.

Além disso, ela destaca que o excesso de tela, ou seja, a utilização contínua do celular e computador, é prejudicial ao educando. “Há meses se desenvolvia pesquisas a respeito do quão prejudicial é o uso da tela e meios para diminuir essa interação, porém, hoje, nos vemos dependentes dela para a comunicação diária e o aprendizado”, comenta.

Aulas remotas, durante a pandemia, fazem com que parte dos alunos não tenha contato com os conteúdos 1
A psicopedagoga Renata afirma que a pandemia está afetando o psicológico dos estudantes e que o aprendizado está prejudicado

Ela também diz que a mudança do físico para o virtual, como alternativa para a conexão entre a escola e aluno, não é a mais ideal, pois o cognitivo não se desenvolve como em sala de aula. Segundo a psicopedagoga, há dificuldade para manter o foco e a atenção concentrada, já que o estudante está em casa e é “complicado de entender que sua casa é, também, a sala de aula”.

Quais as soluções?

Renata avalia que a melhor solução, para este ano letivo, é focar na qualidade do ensino e na objetividade do conteúdo repassado, sem excesso de atividades. “Não se deve pensar em vencer datas ou completar apostilas, mas, sim, em fornecer atividades objetivas, refletindo a respeito de todos os casos e situações de cada aluno. O acúmulo de atividades irá desamparar ainda mais o acadêmico”, diz.

Para ela, o ano acadêmico de 2021 também terá limitações. “Se o ensino, no ano que vem, for regular, ele deveria ser divido por partes, nas quais alguns meses veriam conteúdos programáticos deste ano e, em outros, os do ano que vem. Tudo isso, claro, sem pressionar os professores e estudantes, visando um ensino de qualidade e não quantidade e, assim, oferecer um aprendizado eficaz”, conclui.