Aumento nos casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave gera dúvidas a respeito da subnotificação de Covid-19

por Luiza Rampelotti
24/06/2020 11:04 (Última atualização: 24/06/2020)

A diretora do Núcleo de Vigilância Epidemiológica descarta a possibilidade de subnotificação nos casos de coronavírus no HRL

A pandemia do novo coronavírus (Covid-19) já fez, até esta terça-feira (23), mais de um 1.150 milhão de vítimas no Brasil, dessas, mais de 52 mil perderam a vida. No Paraná, a situação não é tão crítica quanto em outros estados – são quase 16 mil infectados e 487 mortes até a data.

Porém, uma doença grave, que tem quase os mesmos sintomas do coronavírus (o que pode gerar confusão no diagnóstico, se não houver a investigação adequada), tem aumentado no Estado – é o caso da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG).

De janeiro a junho do ano passado, os casos confirmados da doença somavam 2.510, e 339 mortes. Já neste ano, até o momento, as confirmações estão em 6.571 e os óbitos em 1.733. Isso representa um aumento de 162% nos casos e de 411% nas mortes.  

O crescimento repentino nos números da SRAG tem gerado dúvidas à população, que se questiona a respeito de uma possível subnotificação nos casos de coronavírus no Paraná, já que os sintomas são semelhantes em ambas as doenças: febre alta, tosse seca, cansaço, dores de cabeça e nos músculos, comprometimento das vias respiratórias, entre outros.

Para esclarecer essas dúvidas, o JB Litoral conversou com a diretora do Núcleo de Vigilância Epidemiológica Hospitalar do Hospital Regional do Litoral (HRL), Ana Luiza Varella Jamnik. O HRL é o único de referência no litoral, atendendo os casos de urgência e emergência das sete cidades da região, além de ser o único a atender os casos graves de coronavírus.

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A médica Ana Luiza e a enfermeira chefe do Núcleo de Vigilância Epidemiológica do HRL, Gabrielle

Casos de SRAG no HRL

A SRAG é uma infecção pulmonar causada por alguma bactéria ou vírus que ocasiona dificuldade de respiração”, explica a médica. De acordo com ela, no ano passado, foram confirmados 36 casos de SRAG no HRL, desses, 22 até junho.

Já neste ano, até a terça-feira (23), foram registrados 27 pacientes com Síndrome Respiratória Aguda Grave. “Porém, somente nove pacientes, até agora, foram positivados para outros vírus respiratórios, a maioria dos confirmados, neste ano, se tratam de pessoas com coronavírus. Isso significa que as outras bactérias respiratórias desapareceram? Não. Mas como passamos a usar álcool e colocar máscaras, não estamos nos contaminando com os outros vírus que são de tamanho molecular um pouco maior, e com a transmissão menos intensa do que a Covid-19. Ou seja, as medidas de higienização estão nos protegendo de outros vírus”, esclarece.

Ela acredita que o número de casos de SRAG e óbitos pela doença aumentaram, no Paraná, devido à maior investigação que está sendo realizada nos pacientes internados, em razão do coronavírus. “Agora todo mundo está investigando mais o pulmão. Aqui no HRL, por exemplo, aumentamos nosso diagnóstico de tuberculose. Antes, a pessoa chegava com AVC e o diagnóstico era o de Acidente Vascular Cerebral, mas, atualmente, passamos a prestar mais atenção na questão pulmonar, por causa da Covid-19, para observar se outras patologias não estavam sendo causadas pelo vírus”, comenta.

Por isso, para ela, o Estado passou a perceber melhor a Síndrome Respiratória Aguda Grave. “Não que antes não se investigasse, mas, agora, passou a existir uma visão mais complexa”, afirma.

Médica afirma não haver subnotificação

Questionada em relação à possibilidade de existir uma subnotificação nos casos de coronavírus escondida no aumento das confirmações e óbitos por SRAG, Ana Luiza é decidida ao afirmar que não. “A gente acredita em subnotificação, mas não para os casos graves, de jeito nenhum, mas sim para aquelas pessoas assintomáticas que têm o coronavírus e estão nas ruas, porque não sabem que estão contaminadas. Em função disso, o ideal seria que houvesse uma testagem massiva para toda a população, não só para os casos graves ou sintomáticos”, diz.

Ela também afirma que, no Hospital Regional do Litoral, essa testagem em massa já acontece entre os funcionários assintomáticos. Até esta quarta-feira (24), foram realizados 362 testes rápidos e ainda existem 1.217 em estoque. 44 pessoas foram diagnosticadas com coronavírus no HRL, entre pacientes e funcionários.

A Secretaria de Estado da Saúde (SESA) também nega que haja relação entre as confirmações de SRAG e os casos de coronavírus. “Todas as amostras de Síndrome Respiratória Aguda Grave são testadas para o novo coronavírus e aparecem nos boletins diários da doença. Todos esses exames são encaminhados para a análise do Laboratório Central do Estado do Paraná”, diz.

A SESA informa, ainda, que o monitoramento dos casos de SRAG são feitos em hospitais com pacientes que tenham sintomas de febre acompanhado de tosse ou dor de garganta e também falta de ar.

Diminuição de mortes violentas

A respeito dos óbitos, Ana Luiza também afirma não acreditar haver subnotificação. “As mortes que não foram em consequência da Covid-19, algumas delas foram investigadas exaustivamente até chegarmos à conclusão”, comenta.

Além disso, a médica destaca que, com relação às mortes ocorridas no HRL, nos últimos cinco anos, em 2020 houve uma diminuição daquelas ocasionadas por causas violentas, incluindo acidentes de trânsito. Em maio deste ano, foram registrados 61 óbitos, enquanto que no mesmo mês do ano passado, foram 76.

Já em 2018, no mês de maio, aconteceram 80 mortes no Hospital Regional do Litoral; no mesmo mês, em 2017, 82; e, em 2016, 79. “Isso mostra que tivemos uma diminuição nos óbitos. Comparativamente, nos últimos cinco anos, morreu menos gente no mês de maio deste ano, porque tivemos menos mortes violentas, acredito que em decorrência das medidas de isolamento social impostas devido à pandemia”, conclui a médica.

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