Com a Festa da Tainha suspensa em função do coronavírus, pescadores vendem abaixo do preço para se manter

por Luiza Rampelotti
09/06/2020 18:40 (Última atualização: 09/06/2020)

Até o momento, os pescadores artesanais da Ilha do Mel pescaram cerca de uma tonelada de tainha. Foto: Arquivo pessoal/Hélio da Silva

Com a pandemia do novo coronavírus, que se instalou pelo mundo no início deste ano e chegou ao litoral do Paraná, impondo medidas de restrição no convívio social, em março, todos os eventos tradicionais ou não, realizados pela prefeitura de Paranaguá, estão suspensos. Somente neste mês de junho, estavam previstas seis comemorações: a 15ª Semana do Meio Ambiente, a 5ª Festa da Pesca da Tainha da Ilha do Mel, a 10ª Festa Nacional da Tainha, na praça de eventos Mário Roque, que engloba a 43ª Festa do Pescador, a 35ª Festa da Tainha e a 12ª Feira Regional da Tainha.

Para julho, estavam marcados o Open Surf Amador 2020, na Ilha do Mel, o aniversário de 372 anos do município, a Festa Julina de Paranaguá (FEJUPA) e a 6ª Caminhada da Natureza – Circuito Serra da Prata. Em agosto, seriam realizados o Encontro Internacional de Motociclistas e a 11ª Festa de Fandango Caiçara.

Já em setembro, estava previsto o 6º Festival de Música Livre (FEMUL). No mês seguinte, outubro, o calendário municipal de eventos marcava a 6ª Festa Literária de Paranaguá (FLIPA), o 11º Festival de Teatro de Paranaguá (FESTPAR) e a 7ª Corrida e Caminhada contra o Câncer.

Para o mês de novembro, já estava agendada a tradicional Festa Estadual de Nossa Senhora do Rocio que, neste ano, estaria em sua 207ª edição, e a 41ª Festa da Padroeira do Paraná. Em dezembro, para fechar o ano, estavam previstas a 4ª Festa do Caranguejo e o Auto de Natal. Porém, todos esses estão suspensos, sem previsão de nova data de realização, uma vez que o município se encontra em situação de emergência por conta do coronavírus.

32 eventos oficiais em 2020

De acordo com a prefeitura, neste ano, ocorreriam 32 eventos oficiais, de fevereiro a dezembro. Por isso, por meio do pregão eletrônico nº 133/2019, a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo (SECULTUR) realizou procedimento licitatório, visando a locação de estrutura de palco, pirâmides, grades, geradores, piso, trio elétrico, arquibancada, mesas e cadeiras, sanitários químicos, sonorização e iluminação para as festas da cidade. A princípio, o valor máximo para as contratações era de mais de R$ 5.8 milhões, porém, o preço final ficou em R$ 3.292.325,23 milhões.

Sete empresas foram contratadas, mas ninguém imaginaria que uma pandemia assolaria o mundo pouco tempo depois, fazendo com que o calendário municipal fosse suspenso. Por isso, os eventos aconteceram somente até a metade de março, já que no dia 20 daquele mês o prefeito Marcelo Roque (Podemos) baixou o primeiro decreto, nº 1.917, declarando situação de emergência na saúde pública do município, o que suspendeu todas as comemorações.

Dos mais de R$ 3 milhões que as empresas receberiam para a realização das festividades, elas perceberam, até o momento, R$ 478.875, 81. A Secretaria de Comunicação da prefeitura informa que, em função de a modalidade de licitação utilizada para a contratação dos serviços ter sido registro de preço, os pagamentos só são realizados após cada serviço prestado. “Não havendo serviço, não há pagamento”, explica.

O secretário municipal de Cultura e Turismo, Harrison Camargo, comenta que os efeitos do coronavírus afetaram não só a saúde pública, mas, também, a economia, emprego e renda no município. “Os impactos nos eventos, de forma geral, foram enormes, especialmente economicamente. É um setor extremamente importante na geração de emprego, renda e no fomento do turismo no município”, diz.

Segundo ele, a SECULTUR está trabalhando para se adaptar à nova realidade. “Certamente, caso permaneça a indicação do isolamento social, para o aniversário da cidade, por exemplo, teremos muitas formas de homenagear nosso município”, afirma.

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Festa da Tainha

Para a Festa da Tainha, evento tradicional que acontece há, pelo menos, 35 anos em Paranaguá, a suspensão atinge, ainda, os pescadores artesanais que vendem o pescado para aqueles que possuem barracas na festa. Ou seja, além dos comerciantes que não participarão do evento e, consequentemente, não terão nenhum lucro, o que irá gerar menos oportunidades de emprego, já que durante a festa muitos contratavam ajudantes para prestar auxílio, os pescadores também serão prejudicados, porque não terão para quem vender a tainha naquele momento.

Vale destacar que a captura da tainha só é permitida em determinada época do ano, que se inicia em maio e segue até o final de junho. Por isso, os pescadores estão preocupados com a diminuição da demanda, uma vez que, muitos deles, têm a pesca como único meio de sustento.

Hélio da Silva conta que é pescador desde criança, sempre acompanhando os pescadores mais experientes, e, hoje, com 33 anos, continua exercendo a função na Ilha do Mel. Em 2008, tornou-se pescador artesanal cadastrado na Colônia de Pescadores de Paranaguá.

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À esquerda, o pescador Hélio da Silva. Foto: Arquivo pessoal/Hélio da Silva

Ele comenta que, devido à pandemia, vários pescadores estão sem conseguir renda. “A princípio, abastecemos algumas bancas do Mercado do Peixe, mas com a falta da procura pelos pescados, os preços tendem a cair. Além disso, neste ano não acontecerá a Festa da Tainha tanto de Paranaguá, quanto da Ilha do Mel, onde nós conseguimos vender várias toneladas da espécie todos os anos”, diz. 

Venda de peixe abaixo do preço

Segundo o pescador, o coronavírus prejudicou não só a sua classe, mas também todos os moradores da Ilha do Mel. “Aqui na Ilha estamos todos parados por causa dessa doença, já que não entra turista. A renda agora é praticamente da pesca, porque o comércio e as pousadas estão fechados, então vários pescadores e famílias estão indo ao mar para conseguir seu sustento”, conta.

Hélio afirma que, até o momento, os pescadores artesanais da Ilha do Mel pescaram cerca de uma tonelada de tainha, mas que a perspectiva para 2020 é que haja muito peixe. “Como a expectativa para este ano é dar muito peixe, estamos tentando outras maneiras de conseguir vender o pescado, ou seja, podemos vender para a população parnanguara com um preço abaixo do normal”, conclui.

De acordo com a Secretaria Municipal de Agricultura e Pesca, a suspensão das Festas da Tainha não acarreta prejuízo prévio para os pescadores, tendo em vista que eles fazem o comércio direto e não precisam dispor de recursos prévios para participar do evento.

Além disso, a pasta informou, ao JB Litoral, que está em contato com os pescadores e que os mesmos relataram que há compradores interessados nos pescados, mas que ainda não houve pesca de uma quantidade significativa nesta temporada. “A Secretaria de Agricultura e Pesca está à disposição para ajudar no que for possível neste período”, finaliza.