Das ruas às redes: profissionais do sexo aderem à internet na busca por melhores condições financeiras em Paranaguá

por Redação JB Litoral
28/08/2020 20:52 (Última atualização: 28/08/2020)

Na Rua dos Motéis, mesmo com a pandemia, o espaço continua disputado por travestis e garotas de programas à procura de clientes. Foto: Rafael Pinheiro

Por Andresa Costa e Gabriela Vizine e Luiza Rampelloti

O isolamento social, causado pela pandemia da Covid-19, aumentou o uso da internet e provocou mudanças no padrão de consumo da rede. Além disso, causou diversos impactos econômicos por todo o mundo, principalmente nos setores da iniciativa privada, da prestação de serviços e nas mais diversas áreas dos trabalhadores autônomos.

Contudo, há, pelo menos, um mercado informal que conseguiu driblar a crise econômica e se beneficiar com o crescimento da utilização da internet, em Paranaguá: a prostituição. De acordo com um estudo realizado pela fundação francesa Scelles, mais de 40 milhões de pessoas no mundo se prostituem.

São 19h e Milena Garcia, uma transexual e profissional do sexo, está preparada para o trabalho. Com longos cílios, meia-calça arrastão e salto alto, a travesti desfila pelo asfalto à procura de clientes. Muito simpática, ela aceita conversar com a equipe do JB Litoral e compartilha um pouco de sua história. Com 21 anos, Milena vende seu corpo desde os 16.

Mesmo muito pequena, aos 5 anos de idade, já se sentia diferente das demais crianças. “Meu pai comprou uma bicicleta rosa para minha irmã e quem andava mais na bicicleta era eu. Eu tinha um jeito afeminado desde a infância. Eu já nasci assim”, conta. Milena foi crescendo e sua família foi percebendo sua diferente orientação sexual – fato que é encarado normalmente por todos eles. “Minha família me apoia, me abraça e não tem preconceito. Já na rua, é outra história”, relata.

Das ruas às redes: profissionais do sexo aderem à internet na busca por melhores condições financeiras em Paranaguá 2
Com o tempo, Milena alcançou uma vasta cartela de clientes. Foto: Rafael Pinheiro/ JB Litoral

No início da prostituição, o trabalho era muito difícil. Ela cita que não tinha clientes fixos. Naquela época, houve situações em que permaneceu nas esquinas até as madrugadas sem conseguir um programa. Hoje, o cenário é bem diferente. Milena conta que a maioria de seus clientes são homens casados e, diferente do que muitos podem pensar, é muito mimada por eles e recebe vários presentes.

UM ABRAÇO POR R$ 300

O perfil dos homens que pagam por seu trabalho é variado. Há aqueles que preferem manter uma relação, como se fossem amantes; outros a procuram só por uma noite. Em seu cotidiano, situações inusitadas ocorrem diariamente. “Tem cara casado que chega usando calcinha e sutiã por baixo da roupa”, conta surpreendida. “Uma outra vez fui para o motel, por exemplo, e fiquei abraçada com um cara durante 2 horas. Não houve nada, só o abraço e ainda ele me deu 300 reais”, menciona.

Além de “batalhar” nas ruas, os encontros também podem ser solicitados pela internet. “Hoje tem um site só para isso. Muitos caras não gostam de chegar na esquina, então eles solicitam pelo site, por ser uma coisa mais escondida. Lá é mais fácil, os caras nem pedem mais desconto”, comenta.

A profissional do sexo conta que não quer se tornar uma mulher “completa”. “No meu caso, eu não quero ser uma mulher, eu tomo hormônio, mas quero continuar a ser travesti. E é isso que faz sucesso nos programas”, fala. Com esse perfil, ela consegue receber um bom dinheiro e sobreviver. “Eu não tento me passar por uma mulher ou menina. No meu caso, quando alguém chama para sair, já falo que sou travesti, sou trans”, explica.

OPORTUNIDADES FORA DA PROSTITUIÇÃO

Para Milena Garcia, o mercado de trabalho formal não oferece muitas oportunidades para transexuais. O preconceito no mundo dos negócios é grande. “Não é fácil, somos muito oprimidos e perseguidos”, afirma. Segundo dados internacionais, de 85% a 95% das pessoas que trabalham como profissionais do sexo querem trocar de profissão, mas não têm outras opções de sobrevivência.

Das ruas às redes: profissionais do sexo aderem à internet na busca por melhores condições financeiras em Paranaguá 3
“sou muito mimada, sempre ganhando presentinhos e sendo tratada com todo o carinho e respeito”

De acordo com ela, falta um olhar mais solidário dos empresários, da comunidade e do Poder Público para garantir melhores condições para a classe. “Tem muita travesti que passa fome na rua. Uma ONG seria necessária para recolocação no mercado, dando cursos, inclusive. Porém, sem precisar assumir a identidade masculina, o que ela não quer. As travestis vão para a rua porque as pessoas não dão valor e elas acabam se submetendo à prostituição”, acrescenta.

Embora as medidas de segurança que visam evitar a disseminação do coronavírus sejam essenciais, nem todos os clientes utilizam, por exemplo, a máscara de proteção. E, apesar de todos os riscos, muitas profissionais permanecem nas esquinas. “A rua é como se fosse um vício para as trans. Muitas não conhecem outra coisa”, finaliza.

RUA DOS MOTÉIS

Com intenso tráfego pela manhã, a Rua Etuzi Takayama, à noite, se torna mais conhecida como “Rua dos Motéis”, apelido dado ao ponto mais tradicional da prostituição, em Paranaguá, e a mais famosa vitrine para serviços sexuais. Localizada no Parque São, a estrada conta com muitos motéis de ponta a ponta e coleciona muitas histórias.

O espaço é disputado. Mesmo com as restrições devido ao risco de contágio da Covid-19, travestis e garotas de programa se estendem nas esquinas à procura de parceiros. Algumas usavam máscaras, todavia, a grande maioria, não. No caso delas, a pandemia contribuiu para a queda da freguesia.

Das ruas às redes: profissionais do sexo aderem à internet na busca por melhores condições financeiras em Paranaguá 4
Na Rua dos Motéis, mesmo com a pandemia, o espaço continua disputado por travestis e garotas de programas à procura de clientes.

A equipe do JB Litoral conversou com as que se encontravam no local. Algumas acanhadas e outras agressivas, preferiram não se identificar e não dar muitas informações. Questionadas a respeito de como são vistas pela população e se existe algum auxílio por parte do Poder Público, elas disparam: “nunca ligaram para a gente, por que agora vão se importar?”.

CONTINUA DEPOIS DO ANÚNCIO

Já em outro ponto, uma travesti usando máscara e com os cabelos bem penteados, que também não quis dar muitos detalhes, disse com um olhar profundo e um tanto cabisbaixo que “a vida ali não era tão fácil para ela”.

SERVIÇO PRIVADO

Com os decretos municipais e estaduais, as boates e casas noturnas, onde há maior contato físico, foram impedidas de funcionar. Com isso, as acompanhantes migraram para as plataformas on-line como forma de garantir a renda. Redes sociais como Facebook e Instagram, além de sites direcionados à busca de profissionais na área do sexo pago, tornaram-se um nicho de mercado sem custo e com retorno garantido. É o que diz a garota de programa Kelly, de 33 anos.

Das ruas às redes: profissionais do sexo aderem à internet na busca por melhores condições financeiras em Paranaguá 5
Táxis foram afetados em mais de 80% com a queda de solicitações noturnas pelas prostitutas durante a pandemia

Em entrevista exclusiva ao JB Litoral, a loira contou que, antes da pandemia, trabalhava em uma casa noturna na cidade, mas, com a crise, precisou realizar os programas em local privado e por conta própria. Para ela, a mudança foi uma grande solução. “Antes, eu tinha que dar a participação da casa, disputar clientes com as outras meninas e seguir horários predeterminados. Hoje, o lucro é 100% meu, faço os meus horários de acordo com a minha disponibilidade. Tenho a máxima liberdade”, declara sorridente.

Atualmente, a acompanhante chega a fazer até oito programas por dia, a R$ 150 a hora, todos os dias da semana, se quiser. “Antes, na boate, eu fazia de 3 a 4 programas apenas, e faturava R$ 200 por cliente, mas, parte desse dinheiro ficava para a casa. Agora, trabalho conforme a minha vontade e faço meu próprio faturamento. O meu dia de folga sou eu quem escolhe”, afirma Kelly.

Assim como ela, outras colegas de profissão também se tornaram adeptas da propaganda virtual e se deram bem. “Atendendo no nosso ambiente particular podemos cobrar o nosso preço e ter mais controle da situação. Como eu, outras duas amigas também seguiram o mesmo e estão financeiramente bem mais estáveis”, pontua.

Para a profissional do sexo, a mudança de ambiente contribuiu até mesmo para trazer mais segurança e conforto durante as atividades sexuais. De acordo com ela, a região onde realiza os programas é toda coberta por câmeras de vigilância, tornando o ambiente seguro e protegido tanto para a acompanhante como para os clientes que a visitam. 

CUIDADOS NA PANDEMIA

Mesmo no trabalho, a garota de programa não deixa de se preocupar com os cuidados básicos de proteção à saúde. Segundo ela, álcool em gel 70%, lenços umedecidos e sabonetes são itens indispensáveis na hora de atender ao cliente, além, é claro, do preservativo. “Sempre oriento os clientes previamente, mesmo tendo esses produtos à disposição no local. Eles têm a opção de tomar banho também, sempre com toalhas limpas na acomodação”, explica Kelly.

Ela se autodenomina como uma mulher gananciosa e admite que está na profissão apenas pelo dinheiro, mas garante que não é nada fácil conquistá-lo. Para criar a filha de oito anos sozinha, a acompanhante diz não se envergonhar do que faz, pois só assim consegue ter a sua independência financeira e dar a vida que sempre sonhou à sua menina.

Contudo, a profissional do sexo menciona que, para ela, a vida é feita de escolhas e, neste momento, optou pelo lado financeiro. “Neste trabalho, ou você é feliz ou ganha dinheiro. Se eu estivesse com alguém ao lado, com certeza, isso afetaria meu lado financeiro. Tenho um objetivo na vida e vou em busca dele até conquistá-lo”, enfatiza.

A prostituta relata que, ao contrário do que muita gente pensa, é tratada como uma princesa pelos seus clientes. “Sou muito mimada, sempre ganhando presentinhos e sendo tratada com todo o carinho e respeito. Embora seja uma prestação de serviços como outra qualquer, existem clientes que fazem questão de serem gentis”, conclui Kelly.

QUEDA AFETOU TRABAHO DE TAXISTAS

Se a pandemia aumentou as atividades e o ganho das prostitutas que trabalham nas ruas da cidade, a demanda de muitos taxistas que trabalham no período da noite, diferentemente, caiu.

Um profissional do volante que não quis se identificar afirma que o movimento despencou. Segundo ele, as garotas de programas, junto aos clientes, costumavam solicitar o serviço de táxi diariamente. “Isso diminuiu em cerca de 80% o nosso trabalho”, diz.

Ele comenta que os “gringos” – tripulantes de navios, vindos de outros países, que atracam no porto, público que procura bastante os taxistas em encontros com profissionais do sexo – não estão mais utilizando esse tipo de transporte. Segundo ele, os estrangeiros deixaram de perambular pela cidade devido ao coronavírus. “Uma kombi sai do porto, vai ao supermercado, faz compras e volta para o navio para entregar aos gringos. Agora, eles só ficam nos navios. Já as prostitutas, você encontra pela internet”, explica.

1 Comentário
Inline Feedbacks
View all comments