Eles estão em todos os lugares e nas mais diferentes situações. A dureza das ruas lhes tirou a vaidade e, por isto, andam sujos, usam roupas surradas e muitos fazem, da bebida e da droga, o alicerce para enfrentar o dia a dia. Nômades, nem sempre estão em bandos, mas não vivem sozinhos.

Em Paranaguá é fácil encontrá-los cuidando de carros e pedindo o famoso “trocado”, nas portas de panificadoras e restaurantes, dormindo debaixo das marquises e até nas areias do gramado do Rio Itiberê. Alguns já fizeram de dormitório a entrada da Viação Graciosa, a calçada da Casa China e até debaixo do viaduto José Vicente Elias. Sobrevivem das esmolas doadas pelos que desejam se livrar do “incômodo”, medo de verem seu carro riscado e, no caso das mulheres, o temor pela sua segurança.

Diante de toda esta liberdade e sem nenhuma ação efetiva do Poder Público, a não ser o assistencialismo por meio do Centro de Referência Especializado para a População em Situação de Rua  (Centro POP), na manhã quinta-feira (05), chegou ao ponto de retirar um dos seus, do interior da panificadora mais popular da cidade, para desferir 17 facadas.

Foi o suficiente para reduzir, em uma vida, a população dos moradores em situação de rua, “erva daninha”, como caracterizou o Vereador Nóbrega (PRTB) na noite após o assassinato.

“É preocupante a situação que vivemos hoje porque a cidade se tornou um barril de pólvora. Eu citei a erva daninha para ficar muito mais fixado na mente da população. O morador de rua veio de uma forma a Paranaguá, que se sentiu tão a vontade, chegando ao ponto de executar o próprio companheiro dele”, disse o vereador.

 

Assassinato à luz do dia

A afirmação da situação de conforto alegada pela vereador Nóbrega e ausência de uma política pública efetiva por parte da prefeitura se comprovou na briga entre moradores em situação de rua que culminou com o brutal assassinato ocorrido na esquina das Ruas Júlia da Costa com Desembargador Hugo Simas, área central da cidade. Acompanhada de outros dois rapazes, Letícia dos Santos Porto (19), que seria moradora de Curitiba, alegando ter reconhecido Guilherme Galan Constantino (35), como o suposto estuprador que havia lhe atacado, fez Kelvin Mendes dos Santos (19) e Jhonata Fragoso Padovany (25) retirá-lo da panificadora para desferir 17 facadas, uma delas perfurou o pulmão e coração. Ela foi presa pelo Guarda Civil Municipal Wilson e os dois rapazes pela Polícia Militar.

O crime ocorreu a poucos metros da prefeitura e diante da Panificadora Pão e Vinho, a mais popular e movimentada da cidade, principalmente nos primeiras horas da manhã.

Vereador culpa a população que doa

Na sessão realizada na mesma noite, o líder do Prefeito Marcelo Elias Roque (PODEMOS), na Câmara Municipal, Vereador Nilo Ribeiro Monteiro (PP) culpou a população pela manutenção dos moradores em situação de rua na cidade, no momento em que alimenta e doa esmolas. Ele justificou seu pronunciamento informando que numa abordagem de um morador de rua, descobriu que ele estava com três marmitas, duas garrafas PET de dois litros de refrigerante e, no bolso dele, havia também dinheiro.Nilo defendeu que a culpa não é do Poder Público, porque o povo alimenta a pobreza.

Para o vereador a culpa é da população que alimenta a pobreza. Foto/ JB Litoral

 “Nosso povo dá de comer ao assassino ou assassina de 19 anos. Ou é o secretário ou GCM Wilson que está dando de alimentar?”, questionou o vereador sem saber que a assassina estava cadastrada e fazia uso do Centro POP, que também fornece alimento aos moradores de rua. Por sua vez, o Vereador Nóbrega, que o antecedeu, defendeu a população e questionou a falta de política pública para este tipo de situação.

Dar banho e comida e depois devolvê-los à rua não basta. Foto/JB Litoral

“A população é culpada como falou o Vereador Nilo? Sim, é culpada também, mas o Poder Público principalmente. O que oferece para estas pessoas retornarem? Dá um banho nele e comida e depois solta o cara na rua de novo? Se não tiver política pública voltada a estas pessoas, como retorná-las ao mercado de trabalho, como dar um apoio voltar para sua casa com dignidade, aí vai continuar morrendo gente”, alertou o vereador que integra a Guarda Civil Municipal.

Sem albergue

Nóbrega destacou que tem conversado com Levi Andrade, Secretário Municipal de Assistência Social, para tirar suas dúvidas e foi informado que todo o dia chega uma pessoa nova e é difícil a pasta ter um controle. “Paranaguá é tão querida por estes moradores que a própria Assistência Social não tem apoio.

Não existe sequer um albergue na cidade. Não pode mais e então cruzaram os braços e acabou?

Não tem mais investimento, como numa Casa de Apoio, por exemplo?

Infelizmente o Poder Público está deixando para terceiro plano e isto está errado. Se está faltando assistente social aplica um concurso, se está precisando nestas áreas de educador, aplica um concurso voltado a isto, ou não é prioridade? Não da voto? Não podemos mais deixar acontecer o que vimos hoje”, defendeu o vereador.

O que diz a prefeitura

O JB Litoral procurou a prefeitura e questionou se existe um cadastro da população de rua contendo informações básicas, como nome, idade, local de origem e antecedentes criminais. De acordo com técnicos da SEMAS são realizadas abordagens por toda a cidade e feito um cadastramento de forma auto declaratória. Porém, adverte que a Secretaria não tem papel legal para “verificar os antecedentes criminais”.

O departamento municipal informou que a população em situação de rua é flutuante e sazonal e chega aproximadamente a 100 pessoas cadastradas que utilizam o Centro POP. Cerca de 80% são de outras localidades.

A reportagem questionou, ainda, sobre a política adotada para os moradores em situação de rua com problemas de dependência química. O órgão explica que realiza trabalho contínuo para reestabelecer estas pessoas à sociedade e à família. Porém, é necessário que ela deseje ser tratada ou fazer uso dos serviços. Ainda por meio da Secretaria Municipal do Trabalho, Comércio, Indústria e Assuntos Sindicais (SEMTRA) são divulgados os currículos destas pessoas para o preenchimento de vagas de emprego e por meio da Secretaria Municipal de Saúde e Prevenção – SEMPA – são realizados encaminhamentos para casas terapêuticas.

Centro POP

A prefeitura informou que, aproximadamente, 100 cidadãos fazem uso do Centro Pop, o qual oferece café, almoço, lanche da tarde, espaço de convivência, encaminhamentos para a realização de documentos pessoais e salas para escutas qualificadas (que são consultas com assistentes sociais e psicólogas). No local, eles podem lavar suas roupas, tomar banho e são oferecidas oficinas com diversos cursos. O horário de atendimento para os usuários do Centro Pop é das 7h às 17h.

A Secretária confirmou que a moradora em situação de rua, que cometeu o assassinato, estava cadastrada e fazia uso do Centro POP.

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