Durante pandemia, professores se sentem sobrecarregados com o trabalho

por Redação JB Litoral
28/09/2020 17:11 (Última atualização: 28/09/2020)

"A maior dificuldade para a categoria foi fazer a migração do formato de ensino presencial para o virtual", diz professora. (Foto: Divulgação/AEN-PR)

Por Gabriela Vizine

Um estudo realizado durante os primeiros meses de pandemia, envolvendo 2,4 mil educadores, publicado em maio, pelo Instituto Península, revelou um quadro preocupante no cenário educacional: os professores estão adoecendo devido à quantidade de trabalho. A pesquisa mostrou que 53% relataram estar muito ou totalmente preocupados com a própria saúde, além de sentimentos de medo, ansiedade e insegurança.

Quatro meses após o estudo, o índice continua desanimador, principalmente entre os professores paranaenses. De acordo com a Associação de Professores do Paraná (APP Sindicato), os profissionais estão tendo cada vez mais a saúde mental afetada.

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Parece que o trabalho acontece durante as 24 horas do dia

Há oito anos, a professora Cibele Fanini leciona as matérias de inglês e português na rede pública estadual, em Paranaguá. Ela se desdobra para ensinar mais de 8 turmas diariamente, que possuem cerca de 300 alunos. Porém, ela afirma que o número de estudantes aumentou durante a pandemia e a razão é o crescimento de transferências da rede privada para a rede pública de educação, em função da crise financeira desencadeada pelo novo coronavírus.

“Primeiramente achamos que seria algo passageiro, que não demoraria tanto. Foi preocupante, pois, no contexto de escola pública não há estrutura básica. Ficamos apreensivos, com medo e esperando que em, no máximo, um mês estaríamos de volta”, comenta. Após semanas sem aulas, devido aos decretos do Poder Público que estabeleceram a suspensão das aulas presenciais, elas retornaram, mas de uma forma totalmente diferente: via internet e televisão.

“Trabalho acontece durante 24 horas”, diz professora

A professora explica que a maior dificuldade para a categoria foi fazer a migração do formato de ensino presencial para o virtual, pois, segundo Cibele, nunca houve preparação para trabalhar com métodos online por parte das escolas. “A escola que eu trabalho, e a maioria das escolas públicas, não tem laboratório de informática. O máximo que a gente tem numa escola pública, pelo menos na qual eu trabalho, é um data show”, declara.

Ela conta que a técnica para aplicação das aulas, recomendada pelo governo do Estado, foi alterada várias vezes, o que a deixou bastante preocupada. “É bem angustiante você não conseguir fazer o seu trabalho porque depende de uma demanda tecnológica, que a todo o momento muda. Eu tive crises de ansiedade”, lamenta.

Para lidar com a situação e melhorar sua saúde mental, a professora passou a frequentar sessões de psicoterapia. “Isso tem me segurado e ajudado a me centrar, porque não temos horário definido e o celular apita o tempo todo. Parece que você não tem horário de serviço”, diz.

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Ela confessa estar muito sobrecarregada. “Precisamos passar relatórios a todo momento. Estou em casa com meu filho de 4 anos, ao mesmo tempo que cuido dele, estou fazendo o almoço, logo vem uma reunião virtual e o neném chama. Parece que o trabalho acontece durante as 24 horas do dia, porque não há divisão de horários e tudo acontece pelo celular, tanto os contatos quanto as atividades”.

“Acordo com o meu celular cheio de mensagem. No Whatsapp, há pedidos de relatórios. Toda hora há alunos entregando tarefa ou fazendo atividade atrasada. É muito estressante, meu cabelo caiu e eu comecei a comer mais doce, além de utilizar remédio para a ansiedade”, conta a professora.

“Temos que estudar ainda mais”

Assim como Cibele, a professora da Educação Infantil do Serviço Social do Comércio (Sesc) de Paranaguá Denise Moreira, relata que a demanda de trabalho multiplicou. “O trabalho dobrou, pois temos que estudar mais, inclusive, mais do que o professor já estuda normalmente. Além disso, também tivemos que aprender sobre estudos tecnológicos de vídeos e edições de imagem”, explica.

Diferentemente dos professores da rede pública, ela precisa gravar aulas virtuais. “A gente grava, apaga e recomeça. Estamos quase nos tornando atrizes”, brinca. Ela também comenta que a pandemia está exigindo que os profissionais de educação se questionem a todo o instante, pensando em novas hipóteses e buscando ser ainda mais criativos para que as atividades chamem a atenção das crianças e estimulem o envolvimento de toda a família.

O que diz a APP Sindicato

De acordo com a APP Sindicato, os professores estão tendo uma sobrecarga ainda maior do que a que já existia antes da pandemia. “Fizemos uma denúncia pública tanto para a mídia quanto para a sociedade, bem como fomos ao Ministério Público do Trabalho e denunciamos a ausência de planejamento, de preparação e formação para que os professores pudessem realizar uma educação remota”, cita o presidente do sindicato Hermes Silva Leão.

Embora a APP não tenha informado o número aproximado de professores que tiveram a saúde mental afetada pelo cenário da pandemia, Hermes comenta que o sindicato tem acompanhado um nível de adoecimento muito alto, além do desrespeito da jornada de trabalho. “Temos um balanço negativo da pandemia nesse processo”, conclui.

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