É tradição – relembre estabelecimentos que fizeram parte da história dos parnanguaras

por Luiza Rampelotti
28/07/2020 19:46 (Última atualização: 28/07/2020)

É comum que os moradores mais antigos de Paranaguá descrevam o município como “a cidade do já teve”. “Já teve clubes, discotecas, já teve divertimento para a família, já teve espaços de debate para a comunidade”, é o que lembra o seu Antônio Carlos Domingos, parnanguara de 74 anos.

Por isso, o JB Litoral decidiu presentear os parnanguaras mais nostálgicos neste aniversário da cidade, que completa 372 anos na quarta-feira (29). O presente se trata de uma lembrança de estabelecimentos icônicos que fizeram parte da história de muitos moradores, mas, hoje, já não existem mais.

Com o histórico de conservação de suas tradições, a cidade faz com que elas se perpetuem por décadas. Isso é percebido em algumas empresas do município com muitos anos de atuação, passadas de geração para geração. 

Loja Alberto Veiga & Cia

A famosa loja, que era situada na Rua XV de Novembro, foi criada em 1917, pelo próprio Alberto Gomes Veiga (1858-1931), junto aos seus filhos Silfredo e Luiz. O empreendimento logo obteve sucesso e ficou conhecido por sua fachada imponente, sua cor cinzenta escura e suas portas altas.

No entanto, com o desejo de evoluir e expandir cada vez maior, Alberto Veiga, em junho de 1928, adquiriu o velho prédio da esquina também na Rua XV, que era contíguo à sua residência. Com a demolição da velha casa, para a execução da nova obra, o sonho passou à realidade. Em dezembro de 1930 foi inaugurada a loja que funcionou por muitos anos, no local onde hoje se situa as Casas Bahia (antes Ponto Frio).

A história da Alberto Veiga & Cia Ltda, porém, começa muito antes, em 1848, sendo uma das mais antigas firmas parnanguaras e, também, uma das pioneiras do Estado, atuando em vários segmentos. Fundada por Miguel José Gomes Veiga (1801-1881), o pequeno armazém de secos e molhados foi dinamizado por seu primogênito, Alberto, que assumiu o controle do negócio aos 23 anos e foi o responsável por sua expansão, à qual dedicou-se até o fim da vida.

Atualmente, a Alberto Veiga Cia Ltda ainda está ativa, com o nome fantasia Lojas Alberto Veiga e atividade principal de aluguel de imóveis próprios. Funciona na Rua Salim Jorge Chede, nº 175, no Centro de Paranaguá. Todos os sócios são da família Veiga.

Farmácia do Juquinha

Um dos exemplos da conservação das tradições passadas de pai para filho, assim como a Loja Alberto Veiga, foi a Farmácia São José, localizada no Centro da cidade, mais conhecida como “Farmácia do Juquinha”. Funcionando de maneira ininterrupta de 1942 a 2005, a história do estabelecimento se confundiu com a vida do seu saudoso fundador e parnanguara José Reis de Freitas (1910-2002), o popular Seu Juquinha.

Ele foi farmacêutico e bioquímico e, logo após o término do seu curso na Faculdade de Medicina do Paraná, em 1937, iniciou suas atividades profissionais em farmácias da cidade. Após algum tempo, abriu, em sociedade com o médico Dr. Roque Vernalha, a Farmácia Paranaguense, na qual trabalhou por cerca de um ano, vindo, em seguida, a trabalhar na Farmácia Minerva.

A partir de 1942, passou a prestar serviço à população parnanguara em sua própria farmácia, a São José, sob o perpétuo lema: “tratar bem as pessoas para sermos tratados como amigos”. Para Almir da Silva, o objetivo de fazer amigos e não só clientes foi alcançado por Seu Juquinha, pois, além da procura por seus medicamentos, ele conta que a população também buscava por seus conselhos sempre precisos e exatos. “Os conselhos refletiam o amor, o entusiasmo, o dinamismo e a competência que permeavam o desempenho profissional deste ícone de solidariedade e valorização humana”, diz.

Segundo Carlos Eduardo de Freitas Soriani, seu neto, que seguiu os passos do avô e assumiu a administração da empresa até 2005, a Farmácia São José foi uma farmácia popular, que iniciou com a manipulação quando ainda não havia a fabricação de medicamentos específicos. “No interior da farmácia, havia duas salas que eram utilizadas para o atendimento médico e isso era comum na época, os médicos atendiam lá mesmo, prescreviam o receituário e o medicamento já era adquirido no mesmo local”, conta.

Em 1990, José Reis de Freitas foi escolhido como personalidade do ano da cidade, considerado grande colaborador junto ao povo parnanguara e participante ativo na formação da história do município. Ele viveu seus últimos anos ao lado da família, sempre rodeado por seus filhos, netos e bisnetos, e faleceu em 11 de agosto de 2002, aos 92 anos.

Em julho de 2003, Seu Juquinha também recebeu homenagem póstuma da Associação Comercial, Industrial e Agrícola de Paranaguá (ACIAP), como empresário comerciante que, se estivesse vivo, estaria a mais tempo ainda exercendo suas atividades. Além disso, uma das ruas da cidade, na Vila Horizonte, recebeu seu nome.

Centro Gastronômico Ferradura

O Centro Gastronômico Ferradura fazia parte do complexo instalado na Praça de Eventos Mário Roque, inaugurado no dia 29 de julho de 1998, no aniversário de 350 anos da cidade, e se tornou um ponto de encontro de amigos e famílias.

De acordo com moradores, o Ferradura era muito frequentado em todas as estações, principalmente no verão e nos finais de semana. “Havia várias opções de lanches, comidas caiçaras, aperitivos e bebidas. Foi uma opção de lazer e descontração de vida curta que, como quase tudo em Paranaguá, desaparece”, conta Almir Silvério da Silva, pesquisador do Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá (IHGP). 

Assim como o Mercado de Frutas e Verduras, junto ao Mercado de Peixes, o Ferradura foi demolido em outubro de 2009 para dar lugar ao Aquário Municipal e à remodelação da Praça e do entorno deste. O projeto, concebido pelo governo estadual, previa a construção do Aquário, um estacionamento, um novo Mercado de Peixes e um trapiche regulamentado na beira do Rio Itiberê.

Outra moradora, chamada Tatiana Rosário, comenta que a cidade perdeu com a demolição. “Ali era a paradinha de final de compras de famílias, almoços de final de semana e, muitas vezes, do cafezinho preto ou pingado e um bom pedaço de empadão para começar o dia, já que era aberto bem cedo, antes dos afazeres dos parnanguaras”, relembra.

Para ela, o Ferradura também era um incentivo à movimentação da economia local. “Tinha música ao vivo para o público, e sua variedade em refeições, pois eram vários restaurantes em um lugar só, trazia pessoas de fora, o que gerava emprego para muitas famílias. Paranaguá perdeu seu melhor lugar para juntar famílias em seu lazer, que pena”, lamenta Tatiana. 

Com informações do IHGP

Especial 372 anos de Paranaguá