Editorial: Imprensa, culpada por informar

por Redação JB Litoral
30/03/2020 13:06 (Última atualização: 18/04/2020)

No dia em que o Brasil contabilizava 2.201 casos do novo coronavírus, 46 mortes e com todos os estados tendo ocorrências confirmadas desta pandemia, o presidente Jair Bolsonaro pediu, em rede nacional, que governadores desistam das quarentenas e interrompam o fechamento do comércio e das escolas.

Com um aumento do número de óbitos na proporção de 35% em todo o país, de um dia para o outro, o presidente tornou a chamar o novo coronavírus, a Covid-19, de “gripezinha”, fazendo referência crítica ao médico Dráuzio Varella, que, em janeiro, antes do contágio no Brasil, pediu calma à população.

Porém, coube à imprensa de todo o país a culpa, o que ele considerou a “sensação de pavor” pelo fato de os veículos de comunicação estarem fazendo tão somente sua função: informar.  

Bolsonaro se queixou, ainda, da cobertura da imprensa a respeito da pandemia. Mais uma vez, ele acusou os veículos jornalísticos de espalharem um clima de tensão no país. Segundo ele, a abordagem dos meios de comunicação foi “na contramão” da atuação do governo.

“Grande parte dos meios de comunicação foi na contramão. Espalharam exatamente a sensação de pavor, tendo como carro-chefe o anúncio do grande número de vítimas na Itália. Um país com alto número de idosos, e com um clima completamente diferente do nosso. O cenário perfeito, potencializado pela mídia, para que uma verdadeira histeria se espalhasse pelo país”, disse.

Em seguida, Bolsonaro ironizou a TV Globo por pedir calma à população no Jornal Nacional, em edição na segunda-feira, 23.

“Contudo, percebe-se que de ontem para hoje parte da imprensa mudou seu editorial: pede calma e tranquilidade. Isso é muito bom. Parabéns, imprensa brasileira”, afirmou.

Na semana passada, o presidente chegou a ponto de zombar de um grupo de jornalistas que cobre o Palácio Iguaçu, de não estarem fazendo o isolamento domiciliar e sugeriu que fossem para suas casas e, em seguida, confraternizou com um grupo de simpatizantes que estavam a poucos metros dos jornalistas.

Os governadores também não foram poupados e o chefe da nação tentou limitar a locomoção das pessoas, por meio de Medida Provisória e um decreto. Mas foi impedido por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Marco Aurélio Mello.

Entretanto, o caos divisório de opiniões foi instalado e, desde então, uma queda de braço, entre o bom senso e responsabilidade, vem sendo travada contra o que muitos consideram ordem absurda.