Ilha do Mel; um paraíso esquecido no Litoral do Paraná

por Redação JB Litoral
16/05/2018 21:28 (Última atualização: 20/05/2018)

Por Luiza Rampelotti

A partir desta semana, o JB Litoral lança uma série especial de reportagens com o objetivo de alertar o Poder Público, e outros segmentos, de situações que merecem atenção e também de quem vem fazendo um trabalho a ser destacado no litoral do Paraná.

Nesta estreia, a Jornalista Luiza Rampelotti, que ficou um final de semana na paradisíaca Ilha do Mel, conferiu “in loco” seus problemas, os quais foram contados pelos próprios moradores.  

A Ilha do Mel é um dos pontos turísticos mais procurados no Paraná, seja em alta temporada (de dezembro a março), ou em meses pouco requisitados pelos turistas. Pessoas do Brasil e de todo o mundo vêm até a Ilha admirar suas principais atrações: turismo ecológico, esportivo e histórico. Tombada como patrimônio histórico do Estado desde 1982, a Ilha é administrada pelo município de Paranaguá e tem sua área ambiental gerida pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP).

Com 38 quilômetros de extensão, a Ilha do Mel contém belas praias, desertas ou com pouca urbanização, paisagens de tirar o fôlego e diversos pontos turísticos, como a Gruta das Encantadas, o Farol das Conchas e a Fortaleza e N. S. dos Prazeres, todos abertos à visitação pública. A população da Ilha se distribuiu entre algumas pequenas vilas: Encantadas, Nova Brasília, Farol, Praia Grande e Fortaleza.

Apesar de ser considerada um lugar perfeito para muitos turistas que visitam a região em busca de tranquilidade e belezas naturais, os mais de 1.500 moradores da Ilha não estão satisfeitos com a atenção recebida pelo poder público. Aliás, o povo tem sofrido justamente com a falta de atenção por parte do governo. De acordo com Suzi Albino, empresária local e moradora, a Ilha do Mel passou gradativamente a ser abandonada.

“Nestes últimos quatro anos, temos uma percepção clara de abandono por parte do poder público”, desabafa.

 

Insatisfação dos insulanos

A reportagem do JB Litoral foi até a Ilha do Mel conhecer a realidade dos moradores e encontrou muitas pessoas insatisfeitas, especialmente em relação à área da saúde.

A principal queixa da população se dá devido à falta de médicos em dias da semana. Segundo a Prefeitura de Paranaguá, tanto em Nova Brasília como em Encantadas, há atendimento médico duas vezes de segunda à sexta-feira, porém, de acordo com os moradores, quem atende durante a semana são enfermeiras. “O médico fica aqui apenas sábado e domingo. Agora, se durante a semana você cai e corta a perna e precisa dar pontos, por exemplo, você não consegue, porque as enfermeiras não são autorizadas a fazer sutura, e não tem médico. E isto é uma situação séria, porque na verdade a Ilha do Mel tem movimento o ano inteiro, tem morador o ano inteiro. E principalmente porque a gente vive numa região de difícil acesso”, diz Suzi.

Ofélia Santana Gonçalves, moradora, também sente necessidade da presença de médicos todos os dias. “Se a gente precisa de um remédio, a enfermeira só pode nos dar se tiver com a receita, mas não tem médico para dar a receita numa urgência, por exemplo. Se for uma coisa grave a gente tem que pegar o barco para poder ir até Paranaguá e se consultar lá”, conta. O problema é que a travessia de barco custa R$ 30, dura em média duas horas e é feita apenas em determinados horários do dia, sendo a última às 17h. Se os moradores precisarem de atendimento médico após este horário, precisam pagar uma lancha particular até Paranaguá, que custa aproximadamente R$ 300. A prefeitura não disponibiliza nenhum serviço de transporte específico para situações de urgência e emergência médica.

Postos de saúde fechados

Durante visita aos postos de saúde da Ilha do Mel, em 06 de maio, encontramos o Posto de Saúde Flora Neves da Graça, em Nova Brasília, funcionando no horário estipulado, das 08h às 12h e das 13h às 17h. O médico de plantão, Drº Antony Serpa Antoniuk, também estava presente e realizando atendimento. Já o atendimento médico em Encantadas, segundo moradores, funcionou apenas no período da manhã.

Quando a reportagem chegou ao bairro, às 14h, a Associação de Moradores, local onde está sendo realizado o atendimento devido às reformas no Posto de Saúde Ana das Neves, estava fechada e não encontramos nenhuma equipe médica. Aliás, a reforma deste posto também tem gerado preocupação aos moradores pois, segundo eles, está parada há quase três meses. “A obra no posto começou depois do carnaval, mas está parada”, conta Suzi Albino. Rosana Agostinho, moradora de Encantadas, também relata apreensão devido à obra. “Eles demoliram um lugar que já existia e agora não sabemos quando este novo posto vai sair. Falta material para a obra, as pessoas não vêm trabalhar todos os dias, está difícil. Na Associação de Moradores, quando chove, alaga o lugar. Na verdade, chove mais lá dentro do que fora”, afirma.

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Associação de moradores, onde devia estar ocorrendo atendimento médico, está fechada. Foto/JB Litoral

Escassez de pediatra e ginecologistas

Suzi Albino também faz parte do Conselho Municipal de Saúde de Paranaguá e da Associação de Mulheres da Ilha do Mel – Emílias. Voltada para a saúde da mulher, Suzi gostaria de enxergar um trabalho constante nesta área. “As mulheres acumulam muita responsabilidade, o que pode gerar algum problema de saúde, tanto física quanto mental, e muitas vezes falta informação e até ânimo para procurar serviços de saúde no continente, porque é muito trabalhoso o deslocamento”, diz.

Segundo ela, normalmente é necessária a ajuda de um psicólogo ou um assistente social para lidar com determinadas situações. “Precisa ter um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) aqui na Ilha onde, pelo menos, uma vez por semana uma equipe multidisciplinar atenda à comunidade. Aí entraria a questão da saúde da mulher, das drogas, do alcoolismo. As pessoas, aqui na Ilha do Mel, não recebem assistência alguma”, explica.

Suzi também conta que médicos essenciais, como o pediatra e ginecologista, são muito difíceis de serem encontrados na Ilha. A Prefeitura de Paranaguá informou que tem enfrentado dificuldades na contratação de médicos. “Quando se fala em dificuldade para contratar médicos e entra no assunto das especialidades, o primeiro que aparece com escassez é o pediatra. Juntamente com a ginecologia, é uma das especialidades mais difíceis de contratar. Todo profissional tem por lei o direito de gozar de férias anuais. Quando há possibilidade de substituição a Secretaria de Saúde providencia, entretanto desta vez não foi possível por falta de profissional no quadro”, informa a Secretaria de Saúde.

A falta de assistência na área de saúde não é a única reclamação dos moradores da Ilha do Mel, no entanto, é a principal reivindicação.

“A coisa mais urgente, aqui para nós, é a questão dos médicos. Em dia de semana a gente precisa ir até a cidade para conseguir se consultar, se a prefeitura pelo menos disponibilizasse um barco em horário integral para que este transporte fosse feito, já ajudaria muito a nossa vida”, garante Dona Ofélia.

 

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Deficiências se estendem em outras áreas

A Ilha do Mel é o segundo polo turístico do Paraná, atrás apenas do Parque Nacional do Iguaçu, em Foz do Iguaçu. Apesar de suas potencialidades, o sucateamento dos serviços essenciais é preocupante. Moradores de Encantadas convivem com um lixão a céu aberto, sem proteção nenhuma. Crianças, moradores e turistas circulam pelo local e convivem com o mau cheiro diariamente. A possibilidade de transmissão de doenças causadas pelo contato com o lixo, devido à falta de estrutura adequada para o descarte, é iminente.

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Lixo espalhado por diversos pontos da Ilha. Foto/JB Litoral

“É um crime ambiental o que está acontecendo no lixão aqui na Ilha do Mel”, diz Jhenifer Valentim, empresária local e moradora. A Prefeitura de Paranaguá é a responsável pela coleta e transbordo do lixo para o continente, mantendo funcionários e carrinhos elétricos para a o recolhimento dos resíduos. De acordo com os moradores, apenas um, dos dois carrinhos utilizados, estava funcionando.

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Lindas praias dividem espaço com lixo não coletado

Adalberto Luiz Medeiros, ex-assessor do Instituto das Águas do Paraná, atualmente aposentado e morador da Ilha do Mel, afirma que enquanto estava ativo no órgão do governo do Estado, por vários anos tentou trazer mais funcionários e carrinhos de lixo para a Ilha. “O Instituto das Águas repassa recursos financeiros para as cidades do litoral durante a alta temporada, por meio da Operação Verão. Devido à importância turística da Ilha do Mel, o Instituto fez uma licitação, este ano, para recolher o lixo durante o ano inteiro, mas o Tribunal de Contas vetou devido à inadimplência do município diante do TCE”, afirma.

Procurada pelo JB Litoral, até o fechamento desta reportagem a Secretaria de Comunicação Social da prefeitura não havia se pronunciado com relação às acusações.

Famílias da Praça de Alimentação desamparadas

Há outro drama para os moradores da Ilha, mais precisamente para oito famílias de Encantadas. A Praça de Alimentação, localizada na Praia Mar de Fora, perto da Gruta das Encantadas, foi fechada há aproximadamente um mês. Há 20 anos em funcionamento, as oito famílias, que tiravam o sustento dos quiosques abertos na Praça, hoje estão desamparadas.

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Praça de Alimentação sem funcionamento e comércios fechados. Foto/Jb Litoral

De acordo com Gabriel Galli, advogado dos proprietários de box, a Praça é um imóvel construído pelo Estado que, por sua vez, concedeu o uso precário dos boxes por cessão. O prazo desta cessão já decorreu e, na tentativa política de reforma e revisão deste contrato, o Estado não realizou a renovação. “Isto gerou diversos problemas, porque o Ministério Público tomou ciência e, como se trata de um bem público, eles entendem que para qualquer cidadão ocupar o imóvel, necessariamente tem que haver uma licitação, mas nunca houve. O que eles não compreendem é que se trata de uma comunidade tradicional, que possui direitos específicos pelo Decreto Lei 6040/2007”, explica Galli.

O Ministério Público ajuizou ações com a finalidade de impedir que as pessoas, que trabalham na Praça de Alimentação, desenvolvam o comércio no local, visto que não possuem regularidade no imóvel, ou seja, alvará, vistoria da vigilância sanitária e o Certificado de Vistoria em Estabelecimento (CVE), emitido pelo Corpo de Bombeiros.

 

“Agora eu estou sem nada. Quebrei meu braço, gastei o que tinha e não posso trabalhar porque o quiosque está fechado. São oito famílias que têm box lá, e todos nós só sobrevivemos disto. Ficamos 20 anos naquele lugar e agora nos tiraram de lá”, lamenta Rosana Agostinho, proprietária de um dos quiosques.

 

Fim das famosas “Rodas de Forró”

Na Praça de Alimentação também acontecia as famosas rodas de forró, parte da cultura local, que atraía moradores e turistas. “As pessoas estão sem poder se divertir, sem poder ter acesso a nossa cultura, pois foi tirada delas”, relata Jhenifer Valentim. Gabriel Galli afirmou que o Ministério Público argumenta que o forró é um evento específico e deve ter autorização tanto dos Bombeiros, quanto da Polícia Civil para acontecer. “Mas isto nunca foi solicitado antes. O poder público jamais esteve presente na Ilha e em tempo algum houve fiscalização, tudo sempre aconteceu sem um olhar dos órgãos administrativos”, diz o advogado.

De acordo com Galli, antes de fechar a Praça, o Ministério Público devia tratar a situação por meio de políticas educativas, informando à comunidade, explicando o que eles devem fazer para ficarem regularizados e dando um prazo para esta regularização. “O Ministério Público agiu de forma extremamente inconsciente da realidade da comunidade, ajuizou a ação e, infelizmente, o juiz responsável pela causa concedeu a liminar, que prevê que as pessoas que estavam ocupando os boxes não podem mais desenvolver o comércio e o forró, sob pena de multa”, explica.

Sobrevivência do turismo

Atualmente, a comunidade da Ilha do Mel sobrevive por meio do turismo, já que a pesca foi altamente afetada devido ao desenvolvimento do porto. O turismo na Ilha tem picos de visitação no período de veraneio e em algumas datas festivas, quando o comércio é movimentado e os comerciantes conseguem vender seus produtos. Para estas oito famílias, as quais tiveram sua única fonte de renda fechada, a alta temporada não teve nenhum lucro. “Os donos de boxes na Praça de Alimentação são pessoas carentes, que ganham, em média, R$ 700 por mês, possuem filhos com deficiência, que não podem trabalhar e, ainda, têm uma grande dificuldade para acesso à saúde, educação e segurança pública. Estas pessoas estão simplesmente a Deus-dará”, afirma Galli.

 

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