Luta contra o HIV em Paranaguá é silenciosa, mas necessária

por Redação JB Litoral
09/12/2020 17:38 (Última atualização: 09/12/2020)

CTA disponibiliza o tratamento gratuito para a doença e acolhimento psicológico (Foto: JB Litoral)

Por Marinna Protasiewytch

Uma doença que chegou ao Brasil em meados dos anos 80, o vírus do HIV, continua em circulação e sem cura em todo o mundo. Homossexuais foram apontados como os principais vetores da contaminação, que acontece pelas relações sexuais desprotegidas ou pelo contato do sangue com mucosas do corpo humano. Em Paranaguá, por se tratar de uma cidade portuária, os índices demonstram que o vírus segue ativo e fazendo novas vítimas a cada dia.

Nos anos 2000, Izabel Carvalho de Freitas, parnanguara de nascença, recebeu o diagnóstico após ter relações sexuais desprotegidas com um parceiro. “Eu sempre me cuidava, mas dessa vez foi diferente. Saí com uma pessoa e chegou na hora ele disse que a camisinha tinha estourado. Fiquei receosa, fui na saúde e tive que esperar alguns dias para depois fazer o exame. Quando fiz não me deram o resultado, a vinte e poucos anos atrás fizeram eu repetir, e durante esse tempo acabei ficando doente, entrei em depressão e minha imunidade baixou. Na verdade, fiz quatro exames e levei quase um ano para saber o resultado, acabei ficando muito doente no hospital, pesando quase 35 quilos, e foi assim que descobri que estava com a doença já avançada”, contou Izabel, que hoje tem 65 anos e convive há 20 com o HIV.

Cláudia Michelon, psicóloga do Programa de IST/HIV/Aids de Paranaguá, explica que a rede de atendimento da cidade comporta todo o litoral paranaense e realiza testes gratuitos para toda a população no intuito de identificar a doença. “Nosso setor atende os sete municípios do litoral, em relação à medição e consultas, tudo é feito aqui no nosso programa. O CTA faz parte disso e realiza testes rápidos toda a semana, segundas e terças, para toda a população, gratuitamente. Não precisa encaminhamento, o resultado sai em 30 minutos. Se for positivo já encaminhamos a pessoa para o tratamento”, explicou a psicóloga.

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Cláudia diz que o setor atende os sete municípios do litoral

Além das unidades de saúde, a Pastoral da AIDS/HIV ajuda a cuidar daqueles que acabaram infectados pelo vírus. Sula Ferreira, que é coordenadora Diocesana da Pastoral da AIDS, afirma que “a situação continua crítica, os números continuam aumentando, apesar da baixa procura que ocorre em virtude da pandemia da Covid-19. Mas nós continuamos realizando os atendimentos, mesmo que limitados, via internet. Para não expor as pessoas ao risco de infecção, fazemos orientações, acolhida, escuta, auto ajuda e ações de solidariedade à população mais vulnerável, por meio do WhatsApp e das redes sociais”.

Perfil de quem se expõe ao vírus

“A incidência maior tem sido em homens, de 20 a 35 anos, pelos dados do levantamento dos últimos dez anos”, conta Cláudia Michelon. Ao longo das décadas, os homossexuais deixaram de ser considerados os principais vetores e, hoje, a doença atinge muito mais pessoas heterossexuais, brancas, a maioria sem o ensino fundamental completo, conforme indica o levantamento realizado pela Secretaria de Saúde de Paranaguá.

Conforme dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), onde são armazenadas as notificações de doenças na cidade, nos últimos dez anos o município registrou 837 casos de infecção pelo vírus do HIV. Atualmente, a cidade possui um índice de 40,3 casos para cada 100 mil habitantes, conforme a última medição realizada no fim de 2019, mais de duas vezes acima da média nacional, que é de 17,8 a cada 100 mil brasileiros.

Sobre o perfil de quem acaba contraindo a doença, Claudia explica que hoje já não é mais tão óbvio e qualquer um pode ser diagnosticado com o vírus. “Hoje qualquer pessoa pode ser infectada pelo vírus, gestante, mulheres, adolescentes ou idosos. Antigamente, eram os homossexuais e prostitutas, mas isso não existe mais. Aids não tem cara, a gente nunca vai saber quem tem, a partir do momento que você faz uma relação sem camisinha, você está sujeito, inclusive quem tem um parceiro só ou é casado”, ressalta.

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Apesar dos números ainda serem elevados, Paranaguá saiu da liderança de um ranking nada agradável nos últimos anos. No entanto, o município tem acompanhado a redução da doença em um movimento nacional. “Acreditamos que, por meio de muito trabalho de prevenção, conscientização e testagem rápida mais próxima da comunidade, nós vamos conseguir continuar reduzindo este número”, enaltece Sula Ferreira.

Segundo o último boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, em 2019, “a taxa de detecção de Aids vem caindo no Brasil nos últimos anos. Em 2012, ela foi de 21,7 casos por 100.000 habitantes, já em 2018, chegou a 17,8 casos”. “Paranaguá está em 33º lugar no ranking nacional de contaminações da doença, já estivemos entre os primeiros lugares, isso é fruto de um árduo trabalho feito nos últimos anos”, afirma a psicóloga do Programa de IST/HIV/Aids da cidade.

Ranking das cidades paranaenses HIV/AIDS

Com base nos dados divulgados pelo SINAM e pelo Ministério da Saúde, as cidades do estado do Paraná que possuem altas taxas de mortalidade e detecção da doença estão listadas abaixo. Os índices são calculados com base em critérios específicos dos órgãos de saúde.

Ranking municípios paranaensesTaxa de detecçãoTaxa de mortalidadePosição no ranking nacional
Paranaguá35,218,533º
Almirante Tamandaré23,47,234º
Colombo20,56,977º
Pinhais40,46,286º
Araucária217,097º

Conscientização e redução da contaminação

Ainda sem cura, o HIV ainda necessita de grande atenção da população, apesar disso, a doença possui tratamento e pode chegar a patamares que deem uma qualidade de vida ao paciente. “Realizamos ações como palestras, prevenções em escolas e campanhas em empresas, com testes rápidos, mas neste ano, infelizmente, fizemos muito pouco, só até março por conta da pandemia”, explica Cláudia Michelon, da Secretaria de Saúde de Paranaguá.

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Ações da Pastoral da AIDS/HIV, com a pandemia, estão sendo feitos pela internet

Sula Ferreira, coordenadora Diocesana da Pastoral da AIDS, reforça que existe “a necessidade do cuidado em todos os aspectos. Alertar que a infecção com o HIV não acabou. Como todos sabem a AIDS é uma doença silenciosa e as pessoas só ficam sabendo quando realizam o teste ou então quando começam os sintomas. É muito importante a realização da testagem para saber a sua sorologia e mesmo sem manifestação iniciar o tratamento. Não sabemos como ficará a situação pós-pandemia da Covid-19, pois muitas pessoas estão se infectando e como não tem sintomas pode transmitir para outras pessoas aumentando o número de infectados”.

Coquetel ficou no passado

Atualmente, os pacientes não tomam mais os chamados coquetéis de remédios, com várias pílulas e muitos efeitos adversos. Segundo as autoridades da saúde, os soropositivos precisam ingerir de um a três remédios por dia, o que diminuiu também os problemas colaterais, mas eles ainda existem. “Nosso objetivo é que o paciente chegue a uma carga viral indetectável. Isso não significa que ele não tenha mais a doença, mas o vírus fica não detectável nos exames laboratoriais, se parar de tomar a medicação ele volta a se reproduzir. Precisa tomar o antirretroviral até o fim da vida ou até encontrarmos a cura. Hoje temos 70% dos nossos pacientes já com carga viral indetectável por estarem realizando o tratamento corretamente”, conta a psicóloga.

Carvalho de Freitas convive com o HIV há 20 anos e afirma que “não tenho queixas do atendimento, já faz muitos anos que me trato e pego o remédio sem problemas. Mas eu diria para que as pessoas prestassem mais atenção, não é brincadeira, você vai levar o vírus para o resto da vida. Apesar de ficar indetectável, tem que tomar a medicação para o resto da vida. Por tudo o que eu já passei e ainda passo, peço que as pessoas se cuidem, porque se prevenir é melhor do que tratar”.

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