Na Semana da Consciência Negra, conheça histórias de superação e contribuição social

por Redação JB Litoral
20/11/2019 15:49 (Última atualização: 04/08/2020)

Nesta quarta-feira (20), é comemorado o Dia Nacional da Consciência Negra, data da morte de Zumbi dos Palmares, importante figura na luta contra a escravidão dos negros no Brasil. Ele foi o último líder do Quilombo dos Palmares, maior quilombo do período colonial. A data foi incluída no calendário escolar nacional em 2003 e, por meio da Lei nº 12.519, de 10 de novembro de 2011, instituída oficialmente como o Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra.

Um dia que remete a reflexão, diante do reconhecimento e da importância dos descendentes africanos na construção da sociedade brasileira.

Em razão da importância da comemoração e conscientização contra o racismo, o JB Litoral buscou personalidades de diferentes segmentos que se destacam e contribuem para uma Paranaguá melhor. Conheça a trajetória de vida de valorosos negros e negras.

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Padre Dirson Ferreira, Reitor do Santuário Estadual de Nossa Senhora do Rocio

Natural de Campo Grande, cidade do Mato Grosso do Sul, o Padre Dirson Ferreira Gonçalves foi o primeiro de sua família a pensar em ser servir a Deus como sacerdote. Sua vocação surgiu ainda na infância. “Do nada, senti o desejo de ser padre e só queria isso. Fui crescendo com essa ideia e, aos 18 anos, entrei no Seminário, em Curitiba. Fiz Filosofia, na Universidade Federal do Paraná, depois fui para São Paulo fazer um ano de noviciado e, lá, fiz o curso de Teologia e fui ordenado padre”, conta.

Após 10 anos de preparação no Seminário, acumula 16 anos de trabalho na vida Eucarística. “Minha trajetória sempre foi muito realizadora, trabalhei em lugares que me fizeram muito bem. Trabalhei no Santuário Perpétuo Socorro, em Curitiba, Santuários Perpétuos Socorrem de Campo Grande e, agora, Santuário Nossa Senhora do Rocio, em Paranaguá”, diz.

Ele chegou à cidade em fevereiro deste ano, e já está à frente de sua primeira Festa da Padroeira do Paraná. “Nunca tinha participado da festa, já sabia que era grande, mas não tinha noção real disto. Agora, frequentando todos os dias, fazendo toda a preparação, percebi que é realmente um momento muito forte, há um envolvimento muito grande das pessoas. São muitas homenagens, muitas formas de celebrar. Estou muito contente de estar aqui, poder cuidar desse lugar que é um espaço sagrado”, afirma.

Para ele, o Dia da Consciência Negra é muito importante para ajudar na conscientização da população sobre o respeito às diferenças. “Nossa sociedade ainda está em amadurecimento, não só no Brasil, mas no mundo todo, estamos sempre crescendo e amadurecendo para a questão do respeito às pessoas de todas as formas, raças, culturas e etc. Nosso país, embora seja bastante miscigenada, esta questão racial ainda é muito forte, a gente percebe que existe preconceito. Mas, percebo também, que está crescendo uma consciência sobre o respeito ao outro independente da sua cor. Acho que essas datas vêm, exatamente, para reforçar a importância disso. Por isso acho importante celebrar, falar sobre isso, para que essa conscientização não pare, mas continue fazendo parte da formação da nossa sociedade, porque não basta falar para os adultos, tem que começar desde a criança, para tomar consciência do respeito pelo outro, independente de quem é o outro, ele é um ser humano”, destaca.

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Adilson Martins, repórter da TVCI

Natural de Jandaia do Sul, no Paraná, Adilson Martins chegou na cidade em 2007, para trabalhar como Editor na TVCi Comunicações Interativas. Ele era Editor do Programa do Ratinho, do SBT, em São Paulo. “Quando cheguei aqui, estavam sem cinegrafista, e então comecei a filmar. Depois voltei para a edição e só depois me tornei repórter. Foi um caminho duro até conseguir trabalhar como repórter”, conta. 

Iniciou sua carreira na televisão em 1999, em Maringá (PR), como cinegrafista e logo passou à função de Editor de Imagens, na Rede Record. Um ano depois foi transferido para Londrina. “Detalhe, já fazia rádio, mas não tinha muitas oportunidades como repórter”, relembra. Seis anos após, voltou para Maringá e, desta vez, na frente das câmeras. “Mas mesmo sabendo fazer, foi muito difícil devido ao preconceito e discriminação racial”, diz.

Ele afirma que enfrentou muitas barreiras para chegar onde está hoje, como Repórter da TVCi. “Sempre tenho que estar um passo à frente de meus concorrentes brancos. Por isso, é importante lembrar, nesta data de conscientização, que a cor da pele não define caráter e muito menos profissionalismo. O racismo é um crime cultural e está presente, também, nos dias de hoje, e com muita força”, lamenta.

Hoje, não dou muita importância para esse tipo de coisa, sou reconhecido pelo profissional que sou, e agradeço de coração pelo carinho que recebo por onde passo, em todo o Litoral. Agradeço também à direção da TVCi, pela oportunidade que me foi dada”, conclui. 

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Solemar Camargo, servidor e sambista

Parnanguara criado na Vila Cruzeiro, Solemar Camargo já enfrentou diversas situações de racismo e, segundo ele, continua enfrentando até hoje. Servidor público municipal há 11 anos, trabalha como Agente de Saúde e, além disto, é cantor de samba desde os 17 anos.

Na adolescência, estudou música clássica na Catedral Diocesana Nossa Senhora do Rosário, e também foi atleta federado de futebol de campo, mas só competiu a nível estadual. “Aos 17 anos troquei o futebol pelo samba e, desde então, não parei mais, até hoje com 33 anos. Passei por várias vertentes como samba de quadra, que é de escola de samba, samba rock, já toquei em balada, em bares, eventos, já toquei com artistas renomados como Dudu Nobre e Arlindo Cruz, fiz abertura de shows para Boka Loka, entre outros”, conta.  Entretanto, o racismo segue presente em sua vida desde a infância. “Falar das dificuldades é fácil. Sou negro, pobre, sem referência paterna. Na pré-escola sofri meu primeiro racismo, foi uma situação em que eu era o único negro na minha sala, mas eu era a única pessoa, além do professor, que sabia ler. Foi ali que vi que o conhecimento me daria um diferencial, além de ser negro”, relembra.

Como servidor público, afirma que também sofre discriminação racial em seu próprio local de trabalho. “Como sou Agente de Saúde, acabo por abordar pessoas e, ás vezes para elas é complicado ser abordada por alguém com as minhas características, um negro, com cabelo black. Não deveria ser complicado, mas é o que acontece. Há bastante dificuldade no trabalho”, lamenta.

Na área artística, Solemar trabalha um projeto solo com o intuito de apoiar artistas locais no incentivo à produção de trabalho autoral. “Além disto, sigo realizando eventos sociais e solidários, como o Movimento do Samba “Nossa Identidade”, no qual, em uma edição, arrecadamos brinquedos para crianças, em outra, agasalhos e, na última, alimentos que foram doados ao Asilo. Recentemente, o último Samba Solidário que fizemos foi o Pagode dos Boleiros, em que foi arrecadado bastante alimento. A 2ª edição do Pagode dos Boleiros será nesta quarta-feira (20), Dia da Consciência Negra, no Hauer, em Curitiba”, conclui.  

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Selma Barbosa, Guarda Municipal e ativista

A Guarda Civil Municipal Selma Barbosa, parnanguara, tem uma grande contribuição no Movimento Negro do Litoral. Começou trabalhar na conscientização contra o racismo e desigualdades sociais em 2004, por meio de rádios e jornais, quando passou a integrar o movimento. “Realizei palestras nas escolas do município e estado, justamente na Semana da Consciência Negra. Ingressei no Movimento Negro devido à necessidade, eu não encontrava o meu povo diante das frentes de trabalho, nos espaços que realmente são nossos de direito, e decidi levantar a bandeira”, conta. De acordo com ela, o trabalho do Movimento Negro do Litoral começou a surtir efeito, apesar de lentamente e, com orgulho, ela diz que começou a ver a sociedade incluindo os afrodescendentes.

Em 2010, Selma passou em um concurso público e entrou corporação no quadro de servidores efetivos da Prefeitura. “As dificuldades ainda continuam, a gente sempre enfrenta a não aceitação perante a sociedade, ainda existe um racismo velado”, diz.

Na Semana da Consciência Negra, ela faz uma reflexão sobre a importância do povo negro e da cultura africana no Brasil. “Quero destacar nossa luta contra a discriminação racial e as desigualdades sociais. Este é um trabalho que não devemos parar, continuamos sempre na luta. É um trabalho árduo, no dia-a-dia. No Brasil, a gente ainda se depara com discriminações veladas, porque o pessoal não consegue nos aceitar, como negros e como iguais. Tenho dois orgulhos na minha vida: ter nascido negra e ter estudado”, conclui.

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Wagner Luíz, Educador Social e ativista cultural

O parnanguara Wagner Luíz Peixoto da Silva, além de Educador Social da Prefeitura, é rapper. Considera-se um Ativista Cultural, é estudante de Licenciatura em Ciências Sociais, no Instituto Federal do Paraná (IFPR), membro do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas do instituto, e dos Conselhos Municipais de Cultura e de Juventude.

O contato com o rap se deu nos anos 2000, quando seu tio Yong, um dos pioneiros no litoral, o incentivou a escrever as primeiras composições. “A cultura hip hop como um todo contribuiu para a formação do meu caráter, postura e identidade, foi especialmente no rap que encontrei pertencimento, visões de mundo. Costumo dizer que alguns CDs de rap eram a minha enciclopédia, conheci muito do Brasil, do mundo e da vida através da composição desses artistas que falavam de seus dilemas étnico-raciais, políticos, econômicos e sociais, muito marcados por um território específico: a periferia”, conta.

Desde 2013, Wagner se dedica à difusão do rap na cidade, por meio de grandes eventos, rodas de conversas, palestras em escolas, espaços públicos, debates acadêmicos e entrevistas a rádios e televisão. “Busco contribuir, sobretudo através das letras, para uma maior reflexão acerca de temas como desigualdade, negritude e violência, buscando novas perspectivas que possam empoderar de fato o cidadão para se opor a uma lógica opressora que tem como alvo definidos cor, classe e território”, diz.

Na área de Educador Social, ele afirma que é levado a refletir sobre novas perspectivas que possam se traduzir em ações concretas. “Reivindicar o Dia da Consciência Negra é importante para que o negro consiga afirmar sua identidade, para que a gente reconheça a importância de políticas afirmativas, como as cotas raciais. Neste momento de truculência e cerceamento de direitos, a data é urgente, pois os negros são, ainda, os que mais morrem no país, os que recebem os menores salários, e isso se dá porque o Brasil foi montado numa lógica de privilégios, que tinha cor e classe. O país tem uma dívida histórica para com os negros por conta da escravidão, vale ressaltar que fomos um dos últimos países do mundo a abolir a escravidão”, conclui.

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