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Cyro Matoso: o cineasta que retrata uma Paranaguá quase esquecida

Com 85 anos, Ciro está ativo e contando sua história através dos quadrinhos (Foto/JB Litoral)
Com 85 anos, Ciro está ativo e contando sua história através dos quadrinhos (Foto/JB Litoral)

Cyro Jocelim Matoso é o nome mais relevante do litoral paranaense quando se trata de produção local de cinema. O cineasta de 85 anos produziu, de forma amadora, diversos filmes que retratam as histórias e tradições de Paranaguá, além de ser um artista plástico e pintor. Autodidata, descobriu sua paixão pelo cinema na década de 70, quando comprou sua primeira câmera, uma Super-8. Filmando sempre com recursos próprios ou oriundos do resultado das vendas e rifas dos próprios quadros, teve pouca ajuda de políticos e comércios locais.

Nascido em Eldorado Paulista, cidade de São Paulo, veio para Paranaguá aos nove anos. Matoso foi fiscal do Instituto Brasileiro do Café (IBC) e, após se aposentar, dedicou mais tempo à sua verdadeira paixão. Ele conta que aprendeu na prática a produzir filmes e também por influência de The Flash Gordon – a primeira obra cinematográfica que assistiu, no antigo Cine Santa Helena. Ativo usa seu tempo desenhando e pintando sua vida, através das histórias em quadrinhos.

Seu primeiro filme, “Aparição da Virgem do Rocio”, de 1975, foi um trabalho mudo com 30 minutos de duração e recebeu o prêmio Incentivo do Festival Nacional de Super-8, em Curitiba, no mesmo ano. Após o Festival, ele se sentiu mais motivado a continuar produzindo filmes. “Eu ia ao Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá (IHGP) pesquisar a lenda de Nossa Senhora do Rocio nos livros de Nascimento Júnior, para poder saber certinho como foi. O filme foi um sucesso!”, relembra Matoso.

Com enorme vocação artística, ele também é um grande desenhista e pintor, e foi com este talento que reuniu recursos para continuar gravando. “Eu comecei a pintar quadros e vender ou rifar para poder pagar os filmes. Era um sufoco”, comenta. Os quadros do artista retratam uma Paranaguá antiga, paisagens e locais de tradição cultural e histórica. Maria Helena Nízio, amiga e diretora cultural do IHGP, ainda guarda as obras que comprou, uma delas, em 1982.

Os quadros dele são maravilhosos. Contam a história e as tradições de Paranaguá, inclusive retratam até locais que hoje em dia estão completamente diferentes. Tem um quadro que mostra o antigo bambuzal em frente ao Cemitério Municipal Nossa Senhora do Carmo, é lindo”, recorda Maria.  

Quadrinho feito atualmente relembrando sua chegada em Paranaguá


Cinema por amor

Roteirista de suas produções,  seu elenco era integrado por amigos e pessoas que queria ajudar, de forma voluntária. Sem técnica e nenhuma tecnologia, as obras têm qualidade amadora e mostram uma Paranaguá que já não existe mais. Os temas, em sua maioria, tratam a respeito da história, cultura e lendas da cidade.

Sua contribuição para o município é tanta, que é lembrado como o cineasta mais expressivo do litoral. Seu maior desejo era que um dia pudesse viver de suas criações, mas apesar de não ter nenhum retorno financeiro, nunca abandou seu sonho. “Dinheiro eu nunca ganhei, até gastava do meu próprio bolso para conseguir fazer os filmes. Mas era tudo por amor, eu e os artistas fazíamos tudo por amor”, declara.

Ao longo dos anos, seus diversos filmes foram lançados e reproduzidos em eventos e locais da cidade, abertos à comunidade. Alguns participaram do Festival Nacional de Super-8, nas décadas de 70 e 80. “A gente participava junto com 100 filmes do Brasil inteiro, que tinham recursos, tecnologia. Os meus recebiam o prêmio por causa da dificuldade que a gente tinha em fazer, mas mesmo assim a gente fazia e era o único do Paraná a participar”, recorda o cineasta.

Artista completo

Conhecido como uma personagem cultural, devido a sua cooperação para a história da cidade e à sua personalidade inquieta e travessa, se tornou um mestre de superação e improviso. O artista sempre dava um jeito para que suas ideias saíssem do papel e se transformassem em um novo filme. Além disto, criou carros alegóricos para os desfiles das escolas de samba no Carnaval. Uma de suas figuras mais lembradas foi um King Kong de oito metros de altura para a Escola de Samba União da Ilha.

Como se não bastasse, ele tem ainda um lado músico, e ganhou prêmios com suas composições em vários festivais.

Atualmente, apesar da idade avançada, continua a exercendo sua vocação, por meio de quadrinhos desenhados e pintados por ele, que estão sendo digitalizados pelo IHGP e serão transformados em um livro. “A gente tá ajudando ele a fazer essa organização das centenas de desenhos que ele tem, para produzirmos um livro sobre a vida dele. Por toda sua importância cultural ele merece ser lembrado e reconhecido como o grande artista e cineasta que é”, comenta Guadalupe Vivekananda, presidente do Instituto Histórico e Geográfico.

Matoso é a própria história do cinema de Paranaguá, mostrando as várias facetas da cidade e suas lendas, seu povo e suas tradições. Pelo seu trabalho, ele eterniza a comunidade e toda a história e cultura para as próximas gerações. “Parabéns Cyro, a sua luta não foi em vão. Você venceu!”, homenageia Maria Helena.

Filmografia

  • Aparição da Virgem do Rocio, 1975
  • O Mistério da Gruta das Encantadas, 1976
  • O Estranho Mensageiro, 1976
  • Mutirão, 1976
  • A Conquista de Taquaré, 1978
  • Grazy na Terra de King Kong, 1978
  • Aposta Macabra, 1980
  • Jurema: a Índia Guerreira, 1995
  • Joanita: a Doce Caiçara, 2003
  • O Mistério da Casa Afundada, 2008
  • O Tesouro Maldito dos Piratas, 2009