Paranaguá

Um caminhão de saudade: motoristas têm que lidar com a distância da família em festas de fim de ano

Ultima Atualização: 25.12.2019 às 21:29:49
Para maioria dos caminhoneiros, o encontro com os entes queridos terá que ser adiado. Foto: Claudio Neves/APPA

O Natal e Réveillon são datas, tradicionalmente, comemoradas em família. Mas, para alguns profissionais, nem sempre é possível celebrar as festividades junto aos familiares. A situação é uma realidade para milhares de caminhoneiros pelo Brasil, já que, em alguns casos, a única companhia é a estrada. Em Paranaguá, circulam centenas de motoristas de caminhão todos os dias e, para grande parte deles, o encontro com as famílias terá que ser adiado.

A vida de muitos daqueles que trabalham pelas estradas é solitária, pois, muitas vezes, são obrigados a passar datas comemorativas há milhares de quilômetros de casa. A distância da família faz parte da rotina dos caminhoneiros e, em datas como o Natal, a saudade só aumenta, afinal, os prazos são apertados e é preciso aproveitar o tempo para agilizar as entregas, o que geralmente significa adentrar fins de semana e feriados seguindo viagem.

O caminhoneiro Valter Aparecido Ornellas, de Sarandi (PR), atua na profissão há 19 anos e conta que, neste ano, o Natal com a família vai ter que ser comemorado por telefone. “Essa é a pior situação possível, porque a gente já passa o ano inteiro fora de casa, longe da família e, nessa época, queremos estar com eles e não podemos, devido à situação defasada do transporte. A gente tem dívidas, contas para pagar, e hoje não conseguimos mais nos manter, então para poder controlar as finanças tem que se submeter a trabalhar em qualquer época, infelizmente”, diz.

Valter é casado e tem um filho em Sarandi, a 600 quilômetros de Paranaguá. Além disto, seus pais também vivem na cidade.

 “A família espera a gente, está aguardando para passar o final de ano. Infelizmente, esse para mim já foi, só por telefone mesmo. Mas eu queria muito poder ver meus pais, que já estão velhinhos, e eu passo a maior parte do tempo fora. Pelo menos tem a tecnologia para ajudar”, menciona.

Valter vai ter que passar o Natal longe da família. Para amenizar a saudade, o telefone é um grande aliado

Falta de segurança para os motoristas


Para ele, o tratamento ao caminhoneiro, em Paranaguá, é pior do que no restante do país. “Aqui o agendamento não funciona, a descarga não funciona. Do jeito que eu cheguei cedo, se a cidade tivesse uma logística que agilizasse nossa descarga, eu já teria conseguido ir embora. O sistema aqui é dos anos 90, não evoluiu, parou no tempo”, lamenta.

Além disto, outro problema enfrentado pelos motoristas que descarregam no município é a falta de segurança. “Quando vamos para as empresas descarregar, leva até 24 horas esperando, isso que elas já sabem que estamos vindo. Aí tem o pior, não são todas que têm um pátio para o motorista esperar. Quando acha uma com pátio, a gente tá mais ou menos seguro, mas quando ficamos na rua, tem os ‘noias’ roubando, assaltando, causando ainda mais transtorno. Esse é o padrão em Paranaguá”, denuncia.

Ele explica que o ideal para evitar a criminalidade e a demora na descarga dos caminhões, o que, consequentemente, os afasta ainda mais de casa e de suas famílias, seria que as empresas portuárias cumprissem com o agendamento. “A gente vem para cá com carga agendada, então eles deveriam trabalhar com o sistema de logística para cumprir o horário. A partir do momento que elas sabem que estamos a caminho, deveriam se preparar para descarregarmos, mas não é o que acontece”, diz.


Família na boleia


Mas, apesar da demora no descarregamento e da distância de casa, muitos motoristas encontram formas de ficar mais tempo junto com suas famílias. Isso pode significar levar esposa e filhos para a estrada.

Roseli Kovalczik é de Pato Branco (PR) e é casada com o caminhoneiro Adelar Gnoato, que atua na área há 20 anos. Para matar a saudade do marido, ela decidiu abandonar o conforto do lar e acompanhá-lo nas longas viagens, ou seja, sua casa temporária é o caminhão. “Fazia duas semanas que eu não via ele, e como peguei férias do trabalho, decidi vir viajar com ele, pra gente poder ficar juntos”, conta.

Segundo ela, Adelar não pode parar de trabalhar neste final de ano por conta das contas e dívidas a serem pagas. “Tem conta, tem dívida, agora ele comprou o caminhão, tem que pagar as prestações. Então eu resolvi vir junto, e a gente vai passar Natal e Ano Novo na estrada”. Ela revela que pensa em, até mesmo, largar o trabalho para poder viajar com o marido e ficar mais perto.


Mais tempo em casa com a família


Para auxiliar na questão da redução do tempo de espera em filas, da falta de segurança, entre outros, os motoristas têm um representante sindical para lutar pela classe. Hilton Antônio Rangel Júnior representa o Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens (Sindicam – LDA) e explica que seu trabalho é cobrar para que as empresas cumpram os horários, acarretando na diminuição de filas. “A gente pressiona o porto a acabar com as filas e, com esse trabalho, hoje em dia, conquistamos um sistema de punição para o exportador que pede muito caminhão, fazendo fila. Ou seja, o cliente desse exportador acaba tendo que pagar a estadia dos caminhões, ou seja, o tempo que o motorista está perdendo. Mas, a gente sabe que dinheiro não é tudo, porque não vai suprir o tempo que ele ficou longe da família”, diz.

Ele afirma que a luta, agora, é fazer com que as empresas portuárias cumpram o agendamento, para que os caminhoneiros não fiquem esperando o descarregamento fora dos pátios ou nas ruas, correndo o risco de serem assaltados. “Tudo o que queremos é que o caminhoneiro chegue a Paranaguá, faça seu trabalho e volte para seu local de origem, ou seja, sua família, podendo aproveitar ao máximo possível o tempo disponível de lazer e afeto junto aos seus parentes”, conclui.

Mas não é para todos que a situação neste final de ano vai ser triste. Há alguns sortudos que conseguirão comemorar as festividades perto de suas famílias, matando a saudade. É o caso do motorista Matheus Balceviz, de Guaraniaçu (PR), que há quatro anos decidiu ser caminhoneiro. “A distância e a saudade são complicadas, mas é o que eu escolhi fazer. Só que esse ano o planejamento é passar o fim de ano em casa, com minha mulher, meus pais, que estão me esperando. Passei um só fora de casa, depois sempre dei um jeitinho de voltar para matar a saudade”, conta.

Matheus teve mais sorte e conseguirá estar com a família nas festas de fim de ano, em Guaraniaçu



CAMINHONEIROS LONGE DE CASA – PRINCIPAL

Para maioria dos caminhoneiros, o encontro com os entes queridos terá que ser adiado. Foto: Claudio Neves/APPA



Comentários