Visconde de Nácar, um centenário abandonado pelo descaso da Câmara Municipal

O patrimônio tombado por sua condição histórica vive momentos de desprezo das autoridades e depredação por marginais

por Redação JB Litoral
31/10/2020 14:12 (Última atualização: 01/11/2020)

Teto do Palácio Visconde de Nácar está semiaberto, com telhas faltando e exposto à chuva. Foto/Ronaldo Damasceno/JB Litoral

Por Marinna Protasiewytch

Desde 2009, Paranaguá tem o tombamento do seu centro histórico. Junto com essa decisão, tomada pelo Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), uma das construções mais emblemáticas da cidade também ganhou status de patrimônio cultural tombado: o Palacete Visconde de Nácar.

No entanto, o descaso tem sido a marca registrada do local. Em seus anos áureos foi responsável por abrigar uma das figuras mais importantes para a história brasileira, Dom Pedro II, que em 1880 visitou a província criada no local que hoje é a cidade de Paranaguá. Agora, abriga além de pombos, água da chuva, mofo e muita falta de consideração com o patrimônio cultural.

Durante o mês de outubro, a imagem do prédio tomou as redes sociais, com fotografias aéreas, e mostrando um buraco enorme no telhado e janelas abertas, o resultado foi a deterioração do espaço. A prefeitura foi procurada pelo JB Litoral e respondeu, por meio de nota, que “não tem responsabilidade sobre o prédio e que os questionamentos devem ser encaminhados à Câmara de Vereadores do município”.

Mesmo após a repercussão do assunto nas redes sociais, nas três sessões ordinárias realizadas na Câmara Municipal, em nenhuma delas foi colocado em pauta o problema envolvendo o Palácio Visconde de Nácar.

A reportagem buscou, então, o contato direto com o presidente do Legislativo, Waldir Leite (PSC), que assegurou que “foi aberto um processo de licitação tanto para a contratação de um serviço de segurança para a área, quanto para a restauração do prédio, porém, são processos que demoram para acontecer”. No entanto, não soube esclarecer qual será o prazo e como está o andamento do caso.

Procurados pelo JB Litoral, por meio da assessoria de imprensa, os responsáveis pela Câmara dos Vereadores não se manifestaram. A assessoria de comunicação da Câmara informou que somente responderia aos questionamentos por força da Lei de Acesso à Informação, com prazo de 20 dias, e, por isso, até o fechamento desta reportagem não foi possível incluir a manifestação.

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Paredes do palacete possuem desenhos e pinturas escondidos pela tinta utilizada em reformas anteriores, dificultando a preservação da história do local. (Foto/Arquivo João Castilho)

Depredação

O prédio histórico, que para a trajetória parnanguara é primordial, passou a sofrer com a ação do tempo há muitos anos. No entanto, o principal problema, que envolve o Palacete, é a ação humana. Sem segurança e sem cuidado, o local teve suas calhas furtadas e as telhas retiradas para o ato. Dessa forma, o último andar ficou aberto, recebendo sol e chuva, e perdendo seu conteúdo histórico que está presente nas paredes, nos assoalhos e até no teto da construção. Segundo o vereador Jaime Ferreira dos Santos, o Jaime da Saúde (PSD), o assunto já foi discutido, mesmo que informalmente, com os representantes do Legislativo. “Nós já alertamos e ele [Waldir Leite] já sabe de tudo. Então estamos também no aguardo de uma iniciativa dele para começar a reforma do prédio ou falar o porquê de não ter feito até o momento”, declarou o Jaime.

Para João Ricardo Lelo Castilho, técnico em restauro e um dos responsáveis por parte do resgate das pinturas internas da área, o que se perde com o descaso é a história da cidade. “Antes tínhamos um funcionário fazendo expediente, cuidando do local, mas ninguém cuidava como deveria porque a discussão sempre se pautava se a responsabilidade era da prefeitura ou da Câmara. Após comprovar por documentos que era da Câmara de Vereadores, a chave que ficava sob meus cuidados foi pedida e mais ninguém tomou conta do prédio até então”, afirmou.

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Salão interno demanda cuidados, pois contém peças originais nas esquadrias. (Arquivo João Castilho)

Uso do local

O Visconde de Nácar abrigou a Prefeitura, Câmara Municipal e, por último, virou sede de secretarias municipais e também do Procon de Paranaguá. Segundo João Castilho, após a saída do Procon, o prédio não foi mais utilizado e tem vivido momentos lamentáveis por conta da ação do tempo e de vândalos. “Sempre foi assim, enquanto utilizavam o local para alguma função, como o Procon e a Câmara, eles arrumavam, mas depois disso, agora com uma sede própria da câmara, eles abandonaram”, afirmou o servidor público.

Restauração

A promessa de uma restauração do local aconteceu em 2019, após uma reunião das autoridades públicas e alguns servidores. No entanto, quem passa pelo local consegue visualizar que nada foi feito. “A última reunião sobre o restauro do Palácio foi há um ano. Eu estava junto, só que parou e não fizeram mais”, destacou João Castilho.

Segundo o servidor “o telhado está com os madeirames todos novos e as telhas também. O Restauro é somente na parte de esquadrias (portas e janelas) e alvenaria”, pontuou. Sem o protocolo público do processo de licitação, para a restauração do palacete, é impossível informar em quanto tempo o prédio será recuperado. Até agora, a única certeza é de que nada está resolvido.

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