Prefeitura investe quase R$ 3 milhões para distribuição de Ivermectina contra Covid-19

por Luiza Rampelotti
13/07/2020 17:39 (Última atualização: 14/07/2020)

Nesta primeira etapa receberão a medicação moradores em Paranaguá com doenças pré-existentes e pessoas acima de 40 anos

A aquisição emergencial do antiparasitário Ivermectina, para tratamento precoce do coronavírus, pela prefeitura de Paranaguá, já aconteceu na sexta-feira (10). O Executivo comprou, via Dispensa de Licitação nº 026/2020, 352 mil caixas do medicamento, com quatro comprimidos cada, por quase R$ 3 milhões (R$ 2.992.000,00), para distribuir à população. A contratada é a Vitamedic Indústria Farmacêutica Ltda, uma das empresas que produz o fármaco.

Na quinta-feira (09), o prefeito Marcelo Roque (Podemos) havia anunciado a distribuição de um milhão de comprimidos. De acordo com ele, estudos científicos recentes apontam que a intervenção precoce, nos casos leves e assintomáticos da Covid-19, tende a produzir efeitos benéficos evitando a evolução da doença. “Tendo em vista o resultado positivo em outros municípios com o uso da Ivermectina, decidimos adotar, desde segunda-feira (06), esse protocolo (…), a fim de fazermos uma barreira sanitária, com o objetivo de imunizar os moradores da cidade”, afirma Roque.

A secretária municipal de Saúde, Lígia Regina de Campos Cordeiro, também destaca o “resultado positivo esperado de uso em outros municípios no contágio ao vírus Covid-19”, provocado pela Ivermectina. “Considerando as atuais fundamentações nas literaturas vigentes, referente aos efeitos benéficos dos tratamentos profiláticos, objetivando a prevenção de infecções por SARS-CoV-2, bem como atenuar a gravidade das infecções resultantes”, diz.

Ainda não há data para a distribuição

De acordo com a secretaria municipal de Saúde, a pasta está estudando como será a logística de entrega das doses de Ivermectina e ressalta que será montado um cronograma para evitar aglomerações. “Os parnanguaras devem aguardar a divulgação oficial de data e horário de entrega conforme cronograma que será amplamente divulgado“, informa.

Sem eficácia comprovada

Apesar de um suposto “kit contra a Covid-19”, contendo Ivermectiva, Cloroquina e vitaminas estar sendo distribuído por algumas prefeituras do país, organizações e grupos de pesquisa científica e prática médica de Santa Catarina (SC), e nacionais, divulgaram, na terça-feira (07), uma carta aberta condenando a distribuição.

De acordo com o documento, o “protocolo de tratamento precoce da doença é hipotético e não tem qualquer comprovação de eficácia, apresentando riscos à saúde dos pacientes e ao controle da pandemia”. “Tais iniciativas estimulam a aplicação de recursos de forma equivocada, geram falsas expectativas, falsa sensação de segurança na população, impactam negativamente na adesão às medidas reconhecidamente eficazes de proteção e prevenção do SARS-CoV-2, e, ainda, podem causar efeitos colaterais significativos”, diz um trecho da carta encabeçada pela Secretaria Regional de SC da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC-SC).

No caso da Ivermectina, usada no tratamento de vários tipos de infestações por parasitas, a SBPC-SC lembra que, até agora, apenas um estudo realizado em laboratório (in vitro) indicou que o antiparasitário pode inibir a replicação do vírus SARS-CoV-2, mas, mesmo assim, em doses muito superiores às aprovadas e seguras para uso em humanos.

Esta pesquisa foi realizada por pesquisadores do Instituto para a Infecção e a Imunidade Peter Doherty (Austrália), e publicada, no mês passado, pelo periódico Antiviral Research. No entanto, o uso do medicamento ainda precisa ser testado em humanos.

Desperdício de recursos públicos

Por fim, a carta dos especialistas salienta que a distribuição dos kits pelas prefeituras e a proposta de ampliação de seu uso representam um desperdício de recursos públicos com iniciativas ineficazes no combate à doença, tirando dinheiro de investimentos na ampliação das ações que comprovadamente auxiliam no controle da pandemia. “Acabam, assim, por potencializar e agravar a crise sanitária que vivemos, causar efeitos colaterais indesejados em quem se submeter ao suposto ‘protocolo profilático’, além de retardar o controle da epidemia e, consequentemente, o retorno pleno dos setores econômicos e da vida social”, concluem.