Sindicato dos Arrumadores comemora 101 anos de fundação e relembra sua história

por Luiza Rampelotti
10/05/2020 21:42 (Última atualização: 11/05/2020)

A história do Sindicato dos Arrumadores começou em 1919, na antiga Praça do Guincho. Foto: Reprodução/Internet

Nesta segunda-feira (11), o Sindicato dos Arrumadores e Trabalhadores Portuários Avulsos nos Serviços de Capatazia nos Portos de Paranaguá e Pontal do Paraná (Sindacapp), completa 101 anos desde a sua fundação, em 11 de maio de 1919.

A entidade nasceu do agrupamento de trabalhadores que auxiliavam e arrumavam as cargas e descargas nas embarcações nos trapiches da Rua da Praia, que recebeu o nome de porto de Nossa Senhora do Rosário, do Gato e d´Água até chegar a Dom Pedro II, em 1935. Na época, se chamava Sindicato da Estiva Marítima e Terrestre.  “Exatamente ali, na Praça do Guincho, foi onde começou a história dos arrumadores, que é anterior, ainda, à fundação do porto de Paranaguá, o Dom Pedro II, no local que conhecemos hoje, em 1935”, conta o presidente Oziel Felisbino.

Os arrumadores realizam a atividade de capatazia, que é a movimentação de mercadorias nas instalações portuárias, executada na beira do cais junto ao costado dos navios, compreendendo recebimento, conferência, transporte interno, abertura de volumes para conferência aduaneira, manipulação, arrumação e entrega, bem como o carregamento e a descarga de embarcações nas instalações portuárias.

No início, eles eram considerados força supletiva, ou seja, atuavam na falta de trabalhadores do porto. Porém, em 1993, com a Lei de Modernização dos Portos 8.630 (Lei dos Portos), essa força tornou-se efetiva, pois já não existiam mais trabalhadores que realizavam o serviço.

Representando importante categoria na organização portuária, o Sindicato dos Arrumadores conta, hoje, com aproximadamente 600 associados que emprestam, diariamente, sua capacidade laboral para garantir o funcionamento do Dom Pedro II, considerado o maior porto graneleiro da América Latina, de acordo com a empresa pública Portos do Paraná. Além desses, 400 estão aposentados.

Apesar de a comemoração precisar ser diferente este ano, devido ao momento de isolamento social que enfrentamos por causa da pandemia do novo coronavírus, queremos destacar nosso agradecimento, primeiramente a Deus, pela oportunidade de atuar na defesa dos trabalhadores por uma vida melhor e também a todos os associados pela união, apoio e confiança que depositaram em nossa diretoria”, agradece Oziel.

Diretoria luta por melhores condições de trabalho, salário e mais dignidade

Com pouco mais de um ano à frente dos Arrumadores, a nova diretoria, eleita em 1º de abril de 2019, presidida por Oziel Felisbino, juntamente com o secretário Eliel Teodoro dos Santos e o tesoureiro João Guilherme Rodrigues Poleti, se define como “bem atuante”. Nesses 101 anos de existência, a entidade realiza uma prestação de contas aos seus associados a respeito do último ano de gestão.  “Cumprindo promessa de campanha, acabamos com o privilégio da diretoria executiva ao retirar os nossos nomes das listas de cargo de mando durante todo o mandato (capataz)”, comenta. Além disso, na área de assistência social, dirigida por Valfrido Ferreira, atualmente, o transporte de trabalhadores está pegando o associado próximo a sua casa. “Assim, damos mais comodidade e um tratamento digno e respeitoso ao trabalhador”, completa o secretário Eliel.

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Tesoureiro João, secretário Eliel, presidente Oziel e assistente social do sindicato, Valfrido. Foto: Felipe Luiz Alves/JB Litoral

Ele relata, também, que o sindicato adquiriu um veículo novo para a assistência social, além da renovação de acordos e contratos com planos de saúde e farmácias. “Também fizemos novos convênios com farmácias, como, por exemplo, na Ilha dos Valadares. Antes, os trabalhadores que residiam lá precisavam atravessar a ponte para comprar seus medicamentos em uma farmácia na cidade”, diz.

A diretoria informa, ainda, que durante esse um ano de atuação também realizou a reforma dos mausoléus do sindicato existentes em dois cemitérios da cidade. Além disso, intensificou a fiscalização na área de trabalho, “oferecendo maior integração do trabalhador com o sindicato”.

Temos feito um atendimento diferenciado no RH, com uma assessoria mais ampla aos associados, atuando em várias áreas, não somente na documentação”, explica Eliel.

Grandes comemorações

Um dos primeiros atos realizados pela nova diretoria foi a comemoração do Dia do Trabalho (1º de maio), em 2019. “Foi feita uma grande festa para os nossos trabalhadores, com a entrega de vários brindes, entre bicicletas e televisões. Tudo com recursos próprios”, diz o secretário do sindicato.

Na passagem desta importante data, neste ano, não foi possível a realização de festa para toda a categoria comemorar a data, em razão da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), que proíbe aglomeração de pessoas. Porém, o sindicato fez a entrega de um vale churrasco no valor de R$ 150 para todos os trabalhadores.

Ainda em 2019, outra comemoração grandiosa foi a celebração dos 100 anos do Sindicato, em maio do ano passado. “A comemoração do centenário foi um evento grandioso, de porte nacional, onde realizamos o Fórum Nacional com a presença de representantes do segmento portuário de diversos países, trabalhadores, representantes da Federação Nacional dos Estivadores e da FENCCOVIB, o ex-senador Roberto Requião, o deputado estadual Maurício Requião, o prefeito Marcelo Elias Roque, vereadores, entre outros”, relembra Eliel. Para ele, a realização do evento foi motivo de orgulho, uma vez que deu destaque e a devida importância para a categoria.  

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Em 2019, sindicato preparou um Fórum Nacional em comemoração aos 100 anos da entidade


Ele também destaca que, no final do ano, a direção sindical entregou cestas de Natal no valor de R$ 170 para todos os trabalhadores, bem como realizou o pagamento referente às horas trabalhadas, quando todos eles receberam um valor em espécie. No mesmo mês os arrumadores também ganharam um vale compra de R$ 150.


Negociações trabalhistas

O presidente Oziel destaca, ainda, que desde abril de 2019 o sindicato está em constante negociação para melhorar a remuneração, por meio da convenção e acordo coletivo de trabalho, tanto para os arrumadores avulsos quanto para os vinculados. “No ano passado fechamos um acordo com o TCP que foi muito exaustivo, exigiu muitas reuniões, mas conseguimos alguns avanços em todas as áreas, e isso tem trazido um reflexo bastante positivo na remuneração”, diz.

De acordo com ele, outro êxito conquistado no ano passado se trata de acordo em processo judicial, o que gerou uma economia vultosa aos cofres da entidade. Com a poupança, o valor está sendo revertido em benefício do trabalhador da categoria.

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Sindicato dos Arrumadores em negociação com o SINDOP, em 2019

Além disso, ele comenta que, atualmente, o objetivo é negociar com a convenção coletiva, Sindicato dos Operadores Portuários do estado do Paraná (SINDOP) e o acordo com a Associação dos Operadores Portuários do Corredor de Exportação do Porto de Paranaguá (AOCEP) e a empresa Marcon Operadora Portuária, a respeito da movimentação de veículos e sacaria dentro da faixa portuária.

Neste ano, segundo Oziel, outra negociação que exigiu muito do sindicato foi sobre a MP 945, editada recentemente por conta da Covid-19, que dispõe sobre medidas temporárias em resposta à pandemia no âmbito do setor portuário. “Trabalhamos bastante sobre a implementação da indenização ao trabalhador afastado e sobre a implementação da multifunção”, conclui.


Arrumador: paixão passada de pai para filho desde 1919

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Seu Wilson, filho de arrumador, atuou durante 27 anos na função. Hoje, seu filho, sobrinho e primo seguem os mesmos passos.

Seu Wilson Santiago, de 70 anos, começou sua história profissional no Sindicato dos Arrumadores em novembro de 1968, aos 18 anos. Naquela época, os trabalhadores podiam ser indicados por outros que já atuavam na capatazia, geralmente familiares, e ele foi recomendado pelo seu primo Antonio Costa, conhecido por Zico.

Meu primo me indicou, mas o irmão dele, Roberto Costa, também era arrumador. Meu pai, Felipe Santiago, também era, mas ele faleceu antes de eu entrar. Meu tio, Valmir Santiago, também era do sindicato”, relembra Wilson.

Ele conta que, na época, o trabalho era bruto, de serviço braçal, dependendo da força dos homens. “A gente se expunha aos perigos e a tudo quanto era elemento que viesse a prejudicar a saúde. Hoje, as coisas estão mais fáceis com a modernização e a tecnologia”, diz.

Seu Wilson, aposentado desde julho de 1996, ainda lembra-se dos colegas de trabalho. “Naquela época tinha uns 1000 arrumadores, entre contratados e efetivos. A gente era unido, às vezes tinha as desavenças, mas sempre dava um jeito. Nosso foco era só o trabalho e vivia até uma vida boa, mas a renda era baixa demais, e o povo enfrentava assim mesmo”, conta.

Sobre a baixa renda adquirida com o serviço de arrumador, naquele tempo, ele diz que um dos motivos era o período de entressafra. “A gente tinha só seis meses de trabalho e os outros seis eram sem nada, chamados de entressafra. Por isso, eu fiquei uns sete anos trabalhando também como ensacador, nos anos 70, quando o café deu uma boa pegada aqui em Paranaguá, peguei um cartão no Sindicato dos Ensacadores e fui à luta”, relembra.

Com o suor de seu trabalho, seu Wilson conseguiu constituir uma grande família e sustentá-la. “Casei com 21 anos, tive seis filhos, construí minha casa, tudo junto do sindicato”, diz. Um de seus filhos, Jorge Luis dos Santos Santiago, hoje com 46 anos, seguiu os passos do pai como arrumador, indicado por ele. O sobrinho, Arnaldo Leite da Silva Santiago, e o primo, Dirceu Santiago, também foram recomendados por Wilson.

Só tenho a agradecer ao sindicato, porque foi aqui que formei uma família, sustentei e criei seis filhos, todos bem encaminhados. Hoje tenho duas bisnetas. Tive meus momentos ruins, mas a vida é uma luta, e dentro da luta temos que perseverar e não perder nosso foco. Diariamente, peço a Deus por todos os trabalhadores portuários de nossa cidade”, conclui.